VAI TRABALHAR VAGABUNDO.



A malandragem é um tijolo que faz desmoronar todo o complexo edifício do DNA nacional. O pior é que a tal da malandragem é algo do qual muitos cidadãos ingênuos, lobotomizados por discursos que vão da antropologia à crendice popular, se orgulham.
É do genial compositor Billy Blanco (1924-2011) a música-ícone do Rio de Janeiro nos anos cinquenta do século passado. Ela conta a história de um cara que não trabalha, tem corpo de atleta e cérebro infantil e vive de prestar favores sexuais em troca de dinheiro. Ele, tem pinta de conde mas, além do ABC nada mais aprendeu...

Chico Buarque é outro compositor profícuo neste tema. Já descreveu em detalhes os delírios de uma mãe cujo filho lhe levou de presente, fruto de seu ”suor", uma bolsa já com tudo dentro : chave, caderneta, terço, patuá e uma penca de documentos para ela, finalmente, se identificar. Faz sentido. Em pleno século 21, hordas de imbecis acreditam piamente na inocência de um bandido que está preso em Curitiba por ocultar a propriedade de um tríplex adquirido por meios escusos.

No O ESTADO DE SÃO PAULO de hoje, 19.12.18, o antropólogo Roberto DaMatta nos brinda com um artigo que joga uma boa dose de luz sobre a malandragem nacional. Reproduzo aqui alguns dos tópicos mais esclarecedores:

 É preciso não esquecer que, até anteontem, o Brasil foi escravocrata. Nele, o trabalho não era um chamado ou vocação, mas castigo. Separamos emprego – acima de tudo, público – de trabalho. Não se entende a malandragem somente com a lei. Ela é a marca de um sistema que desvaloriza o trabalho. O malandro imita o ideal do patrão rico que tudo tem e nada faz.

Há entre nós uma “ética da malandragem” (de não fazer nada) pela qual todos se salvam e nada muda. O trabalho como castigo produz a institucionalização da corrupção política cujo tema implícito é o trabalho como algo que inferioriza e o mantra do “se eu não roubar, outro rouba” – o que é de todos, não é de ninguém!

No Brasil, roubar uma pessoa é roubo, assaltar o que é de todos é malandragem. Uma impecável honra pessoal desculpa o descarado roubar coletivo. Quem, aliás, rouba é o governo e não o Estado ou a sociedade.

O “político” – salvo exceções – é o mediador que malandramente desvia os recursos do Estado em favor de um governo. Do “governo” que é sempre personalizado como inocente para os seus asseclas.

Bens públicos ou particulares impessoais: poltronas de cinema, bancos de praça ou paredes são vandalizados. Festas, como o carnaval, ritualizam a licença e estimulam esse comportamento porque nele todos viram malandros.

Leio que nossa “Suprema Corte” vai discutir no dia 10 de abril de 2019 se vale ou não a prisão após a condenação em segunda instância.  Também há malandros que vestem toga. Estes são definitivamente os piores. Deturpam o entendimento da lei para livrar criminosos comuns da cadeia sempre que esses compartilhem de suas convicções políticas e ideológicas.

DaMatta encerra assim seu brilhante texto:

A malandragem abafa diferenças fazendo do inferior social um herói anedótico. Ela só vai ser domesticada quando levarmos a sério o trabalho e nos livrarmos dos bloqueios legais que são o centro de um sistema de privilégios. A vivência da igualdade demanda conflito e coragem. Há uma ‘ética da malandragem’ (de não fazer nada) pela qual todos se salvam e nada muda.

O Chico Buarque das letras é diferente daquele que compactua com meliantes sem escrúpulos.

Vai trabalhar, vagabundo
Vai trabalhar, criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura.

É disso que precisamos. Trabalho sério e , quase sempre, penoso. O resto é papo de vagabundo.


De brinde para você, "Mocinho Bonito" de Billy Blanco na voz de Dóris Monteiro.




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