HOMENS BONS DEMAIS SUFOCADOS PELO MAL.



O filósofo grego Diógenes de Sínope (413-323 a.C.) é aquele que, nos conta a história, andava pelas ruas de Atenas carregando uma lanterna acesa em pleno dia. Sua missão impossível: encontrar um homem minimamente honesto. Diógenes era crítico feroz dos costumes e valores do país que o acolheu (nascido na Turquia viveu exilado na Grécia até o fim de seus dias). Dá pra entender: os gregos da elite, estavam mais preocupados com a estética de tudo o que pudesse ser construído, escrito ou pensado.

Diógenes sabia como ninguém que a única forma de canalizar uma mensagem poderosa no seio de em uma sociedade amaciada pelo excesso de autoindulgências era através do exemplo radical. Não detinha posses. Vivia dentro de um barril de barro e sua ração diária era aquela que coubesse em uma cuia recebida como esmola.

Pule pro Brasil de hoje. A poderosa e insensível elite aboletada no topo do serviço público luta com unhas e dentes para manter todo tipo de privilégio odioso que, claro, é bancado pelos impostos retirados, sem contrapartida, do cidadão comum e impotente.  Políticos que deveriam devotar-se à defesa de ideais elevados e à construção de um país do qual pudéssemos nos orgulhar usam seus mandatos para perpetrar, sem pudor, as mais abjetas formas de gestão fraudulenta que vão da malandragem nociva à mais escabrosa corrupção.

O país delimitado pelas atuais fronteiras só se tornará uma nação verdadeira quando seus homens e mulheres de bem decidirem ser tão audazes e determinados quanto os fora-da-lei.Tudo começa lá atrás, no confortável sofá dos milhões de lares abastados ou remediados, onde se aninham crianças e adolescentes hipnotizados por seus videogames e celulares. 

Enquanto isso, no Comando Vermelho ou outra central qualquer do crime organizado, indivíduos de sete anos de idade são treinados para o perigoso trabalho de transporte de drogas. Aos 15 anos já estão calejados e fortes o suficiente para suportar uma vida sobre o fio da navalha que lhe cortará o pescoço na primeira e última vacilada.

Os pais de nossas crianças e adolescentes preferem o escapismo moral.  Enquanto os corruptos de todas as cepas são destemidos e entram de peito aberto pra ganhar ou perder, nossas fileiras ainda batem cabeça na lenga-lenga inócua do voto branco ou nulo.

Em, 1977, Elis gravou “Colagem” de Claudio Lucci. A letra é uma poderosa alerta para gregos, troianos e brasileiros acomodados. “Se esconder não é tão bom pra viver...somos homens bons demais sufocados pelo mal”...


Se você com muita calma usar sua raça
Vai surpreender
A surpresa para muitos é uma arma
Pra se esconder

Se esconder não é tão bom
Pra viver, pra morrer
Se você lembrar que tudo é relativo
Vai compreender

E a compreensão por vezes tão sensata
Vai lhe conter
Se conter não é tão bom
Pra viver, pra morrer
Pra viver, pra morrer

Se você tentar despir essa colagem
Vai se perder
E a perda de si próprio é quase um passo
Pra conceder

Conceder não é tão bom
Pra viver, pra morrer, pra nascer
Somos homens sem lugar
Homens velhos com raça

À espera de algum descuido
E com cuidado gozamos paz
Somos homens bons demais
Sufocados pelo mal

Só queremos acreditar
Que isso tudo
Pode acabar

Ouça "Colagem" com Elis Regina.


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