TODO MUNDO FAZ...



Nossa sociedade é corrupta. Para alguém ser corrupto não é preciso praticar o ato final da corrupção, seja ele qual for, basta aceitá-lo como algo natural. Em 1967, se você não fosse convidado para um baile de debutantes era considerado um pária social. Eu tinha 18 anos e queria, de todo modo, ir ao prestigiadíssimo baile do Clube Curitibano.

Não era sócio, mas isso não era, exatamente, um impeditivo. Bastava ter amigos que fossem. E eu tinha vários. O esquema era simples: alguém que já havia entrado, enviava sua carteirinha por um portador. Você pegava o artefato, fazia uma cara de filho de sócio-fundador-diretor e entrava.

No Brasil de hoje você tem um certo ex-presidente que se declara a alma mais honesta da galáxia mas, que acha naturalíssimo ocultar patrimônio adquirido sob a forma de propina. Você também tem ministro do Supremo que não vê nada demais em julgar habeas corpus de empresários com os quais possui fortes laços sociais, pessoais e profissionais. Os exemplos são enfadonhos: vão desde o “gato” da luz elétrica na favela até o pagamento “por fora” de valores imobiliários para se burlar o fisco.

Corrupção, no Brasil, é algo tão corriqueiro quanto tomar uma cerveja gelada numa roda de amigos. Quando uma ministra de Estado é flagrada alegando que precisa acumular um salário de mais de 30 mil Reais a outro de igual valor (quando isso é ilegal) usando em sua defesa a necessidade de estar bem vestida e maquiada caso contrário (ou seja: não meter a mão nessa bufunfa imoral) equivaleria a trabalho escravo, a gente percebe que se chegou abaixo do fundo do poço da falta de ética.

Existe um tal de Grupo Bellini Cultural cuja expertise é fraudar a Lei Rouanet. Em junho do ano passado já se sabia que Antônio Carlos Bellini Amorim era figurinha carimbada na arte das falcatruas com dinheiro do contribuinte (algo da ordem de 180 milhões de Reais). Hoje, a conversa de Bruno Amorim (filho de Antônio Amorim) e sua mãe Ana Lúcia, publicada na imprensa nacional é de um didatismo acachapante:
........
Bruno: Porque o que eu faço, na verdade, não é 100 por cento correto, entendeu? É tipo… eu cumpro a lei, mas não poderia tá fazendo o que eu faço.
Ana Lúcia: Por quê?
Bruno: Por que não, mãe. Sei lá, é complicado...
Ana Lúcia: Não é Lei Rouanet?
Bruno: É Lei Rouanet, mas não é 100 por cento. Ah, depois eu te explico. Mas não é 100 por cento correto.
Ana Lúcia: Mas, filho, se não é 100 por cento…
Bruno: TODO MUNDO FAZ, todo mundo faz
Ana Lúcia: É, filho, mas isso implica em quê?
Bruno: Não, não implica em nada, mãe. Eu tô dando, tipo, as contrapartidas sociais, plano do projeto…
Ana Lúcia: Tá o quê?
Bruno: Tô fazendo tudo certinho
Ana Lúcia: Hum. Mas o que que não é correto, Bruno?
Bruno: É porque eu dou uma contrapartida a mais pro patrocinador que não podia dar, mas tudo bem, isso daí todo mundo dá, entendeu?


Tenho vergonha de ter entrado de penetra no baile de debutantes. A consequência deste ato infantil em termos de prejuízo a outrem não posso precisar ao certo. Talvez devesse. Não quero terminar meus dias em um país cuja sociedade acha natural a prática de corrupção porque todo mundo faz...

É possível mudar este estado de coisas com gestos simples. Ao invés, por exemplo, de dizer que todo político é corrupto, melhor seria olhar-se no espelho e perguntar o que estou fazendo de errado que não mais deveria fazer. Que tal começar não reelegendo ninguém em 2018? E depois, claro, fazer marcação cerrada nas ações dos novos eleitos. Sem contemporizar. Tolerância zero com qualquer forma de corrupção venha de onde vier. Pode não ser tão fácil, mas que é possível, isso é. Basta querer.

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