QUANTO CUSTA A CULTURA BRASILEIRA?



Existe um PAC nos Estados Unidos. Não. Não é o que você está pensando. Nada de planos fraudulentos para enriquecer políticos corruptos e empreiteiros venais. Trata-se do Participatory Arts Coalition, algo como uma Coalizão Participativa das Artes. Este movimento tem por objetivo usar a cultura para ”criar diálogo e conexão contra as narrativas do ódio e intolerância mostrando ao país como a democracia deve ser praticada”.

Nossa classe artística está a anos-luz disso. Como até as cortinas dos teatros sabem, artistas por aqui (em sua esmagadora maioria) acreditam que o Estado tem a obrigação de socializar os prejuízos advindos do patrocínio de uma “arte” altamente questionável e politicamente engajada (que termo mais antigo, meu Deus). Este engajamento, como estamos carecas de saber, tem um lado só: aquele defendido por Chico Buarque (que na adolescência roubava carros como diversão e hoje defende quem rouba a Nação para fins inconfessáveis).

Bem, Arlette Pinheiro Esteves Torres, mais conhecida como Fernanda Montenegro, tem lá sua dose de razão ao afirmar que “cultura é a alma de uma nação”.  Esta definição soa quase como uma fala de Hamlet. Cultura é softpower. Os estadunidenses sabem disso. Os ingleses idem. Os franceses são mestre nesse quesito. Os chineses começam a entrar no clube.

Softpower é mais ou menos como ir ao Louvre. Você não vai a um museu. Você vai ao Louvre. Ou, para a classe média, é ir à Disney. Você não economiza seu dinheirinho para levar a família a um parque de diversões. Você vai à Disney.
Cultura é softpower. É a maneira mais indolor e eficaz de polinizar crenças e valores mundo afora. Pense em musicais: Broadway. Pense em moda: Paris. Pense em aristocracia: Downton Abbey (ops! Inglaterra).

Estive em Viena. A pátria da erudição musical. Vi Fidélio na Wiener Staatsoper (Ópera de Viena). Quem vai até lá tem à sua disposição um cardápio de 350 apresentações de altíssimo nível por ano, constituído de 60 óperas e 10 balés diferentes. São mil funcionários que valorizam cada centavo de um orçamento anual de 100 milhões de Euros (cerca de 370 milhões de Reais). A metade disso é bancada pelo governo, a outra, pela iniciativa privada (os maiores apoiadores são a Lexus e a Art/Omv moves).

Enquanto isso, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo, em 2016, com um orçamento de R$ 119,3 milhões de Reais só foi capaz de mostrar ao público quatro (é isso que você está lendo) óperas. Faça uma conta simples e você achará difícil de acreditar que em Viena o custo por espetáculo é de razoáveis R$ 1,057 milhões de Reais enquanto em São Paulo isso chega a inacreditáveis R$ 29,8 milhões.

Vamos até Nova Iorque. Uma das mais prestigiadas salas do planeta é o Metropolitan Opera House. Totalmente privado desde sua fundação em 1883. Lá, ao contrário daqui, os empresários ricos queriam ter seu próprio núcleo difusor de arte. Enrico Caruso, um dos maiores tenores de todos os tempos, atuou no Met de 1903 até 1921. É dele o maior número de apresentações individuais na história da instituição.

Desde 1966 o Met habita no Lincoln Center. Não há montagens como as de lá. São 200 performances em cada temporada anual a hipnotizar os amantes do bel canto com as melhores vozes humanas disponíveis. Em maio de 2018, a arrebatadora soprano russa, Anna Netrebko, estará no palco dando vida a Tosca, um dos papéis mais conhecidos do gênero. Já garanti meu ingresso antes que acabasse.   

Qual o segredo do Wiener e do Met? Qualidade máxima como resultado de uma gestão tão primorosa quanto incansável dos recursos disponíveis. Afinal, ninguém deixa de ver sua ópera favorita por causa do preço do ingresso (alguns chegam a 400 Euros ou 1.600 Reais). 

Algo que os artistas milionários, que se lambuzam no tacho sem fundo da Lei Rouanet, nem sequer cogitam é que, nos países civilizados (aqueles que acreditam em gestão), as instituições que produzem espetáculos de dança, concertos, ópera, teatro, museus e congêneres realizam pesquisas com o público consumidor potencial para detectar preferências e a partir disso estabelecer políticas de preços e o desenvolvimento de produtos.

São essas pesquisas que dão segurança aos investidores e doadores de que o dinheiro deles não estará sendo jogado na sarjeta. Isso é tão óbvio quanto um staccato. Até uma BBC, por exemplo (companhia de difusão estatal inglesa), é submetida a rígido controle público ao mesmo tempo que, tal como outra emissora qualquer, precisa competir no mercado internacional. Algo impensável na fantasmagórica TV Brasil, criada para garantir a boa vida de admiradores de Hugo Chaves e Che Guevara. Este arremedo de canal com zero de ibope (0,14 para ser exato) sugou, desde sua criação em 2007, inacreditáveis 6 bilhões de Reais de nossos impostos.

Até o vento que sopra pelas coxias sabe que o governo, seja ele qual for, usa a cultura para atuar em favor de ideologias (quanto mais totalitário, maior é o assalto aos cofres públicos). Ao invés de financiar Luan Santana (R$ 4.143.325,00 para uma turnê pelo país) ou ou descerebrado Tico Santa Cruz (R$ 1.086.214,40), notórios garotos-propaganda do que há de mais atrasado e pernicioso no espectro político nacional, o subsídio às artes deveria ter como objetivo a educação de crianças e jovens para que consigam usufruir do maravilhoso (e complexo) mundo da cultura, algo inescapavelmente elitista em qualquer latitude que se pretenda perscrutar.

Mas, como disse o profícuo (e inimitável) dramaturgo Nelson Rodrigues : "Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos".



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