A VIDA SECRETA DAS PRIMEIRAS-DAMAS.




Homens e mulheres são lembrados (ou esquecidos) pelo repertório de eventos que produziram ao longo de suas vidas. Mulheres, por conta de séculos e séculos de repressão, relativismo cultural ou interpretações religiosas absurdas, sempre receberam, injustamente, o julgamento mais severo das normas morais e costumes sociais, muito mais benevolentes com o sexo masculino. Primeiras damas não fogem à regra.

Mary Todd Lincoln (1818-1882), esposa de Abraham Lincoln, era o contraponto perfeito ao marido, com sua refinada educação e aguçada visão política. Tanto que, ao vencer a corrida presidencial em 1861, “Abe” chegou em casa esfuziante dizendo em alto e bom tom: “Mary, fomos eleitos” (Fonte: White House Studies).
Mary, entretanto, ficou mais conhecida como a mulher que usou dinheiro público, que deveria ser destinado ao pagamento de despesas dos soldados da guerra civil, para bancar um guarda-roupa tão caro quanto sortido.

Eleanor Roosevelt (1884-1962) é um mito dentro e fora dos Estados Unidos. Ativista combativa em prol dos direitos humanos e, especialmente, das mulheres, crianças e população carente, redefiniu o papel de “primeira-dama”, até então, visto como mero apêndice decorativo. O cargo passou a ser considerado pelos historiadores de seu país como “antes” e “depois” de Eleanor.

Eleanor tinha, como todo mundo, seu lado B. Como os blogueiros sensacionalistas sabem de cor, rende muito mais expor a vida privada de pessoas públicas, principalmente quando há algo picante a ser explorado. A biografia de Eleanor não deixa de destacar sua vida amorosa heterodoxa seja com a jornalista Lorena Hickock ou com o oficial da polícia nova-iorquina Earl Miller.

A lista é inesgotável.  A vida pouco convencional de Eva Perón (1919-1952) foi um prato cheio para a Broadway. Jacqueline Kennedy (1929-1994) virou ícone de bom-gosto e elegância misturados, claro, com dor e tragédia.  Imelda Marcos (88 anos), jamais será esquecida como a compradora compulsiva de sapatos de grife (mais de 3 mil) enquanto seu marido, o ditador Ferdinand Marcos brutalizava seus concidadãos.

O Brasil não está isento de fatos inusitados na vida atribulada de suas primeiras-damas.
Nair de Tefé (1886-1981), esposa do Marechal Hermes da Fonseca, foi uma primeira-dama polêmica. Educada na França e de linhagem aristocrática, era um tipo multimídia, raríssimo na época, com incursões na vanguarda modernista. Considerada a primeira caricaturista brasileira, sob o pseudônimo de Rian (seu nome ao contrário), teve obras publicadas nos melhores jornais da República. Tudo isso, claro, obscurecido pela ousadia de promover, em pleno Palácio do Catete, sede do governo, um sarau com a presença de Chiquinha Gonzaga onde rolou solto o “maxixe”, dança considerada imoral e vulgar. Seria mais ou menos, como se a recatada Marcela Temer resolvesse promover um baile funk no Palácio da Alvorada tendo à frente Tati-Quebra Barraco.

Darcy Vargas (1895-1968), esposa de Getúlio Vargas, tem seu nome indelevelmente ligado às obras sociais com a criação da LBA-Legião Brasileira de Assistência. Mas a história insiste em lembrá-la como a mulher rancorosa pelas costumeiras traições do marido que preferia os afagos da vedete Virgínia Lane conhecida como a detentora das “mais belas pernas do Brasil”.

Nossa lista de primeiras-damas inclui de tudo: da visionária Sarah Kubitscheck (1908-1996), esposa de Juscelino Kubitscheck, fundadora do revolucionário projeto hospitalar, voltado à reabilitação de pacientes com trauma, que tem o seu nome, à inescrupulosa Rosane Collor, 54 anos, que resolveu pilhar, justamente, a LBA fundada por Dona Darcy precipitando, assim, o seu fechamento.

A era Lula nos trouxe como primeira-dama a outsider Marisa Letícia (1950-2017). É impossível não compará-la com sua antecessora e doutora em Antropologia Ruth Cardoso (1930-2008), esposa do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ruth, foi, inegavelmente, nossa primeira-dama mais cultuada intelectualmente dona de uma produção acadêmica reconhecida mundo afora.

Em minha modesta opinião, Dona Marisa foi mais uma vítima do comportamento psicótico de seu marido, sedento por reconhecimento e poder. De pouca instrução viu-se, repentinamente, tragada pelo redemoinho letal urdido por políticos corruptos, amantes desavergonhadas e todo tipo de indivíduos e personalidades tóxicas. Foi, ora vejam, a única primeira-dama da nossa história a ocupar um gabinete próprio, no Palácio do Planalto. Achava que era assim que poderia controlar os “arroubos românticos” do marido, impondo, inclusive, horário rígido para arrastá-lo de volta ao Palácio da Alvorada.

Foi “aconselhada” a manter-se calada em todas as circunstâncias para não deixar transparecer sua rudimentar intelectualidade. Imagino o que deve ter passado nas mãos de assessores blasés nas inúmeras peregrinações oficiais tendo à frente o exótico sindicalista que virara “presidente”.  

Imagino também, o dilema que deve ter vivido, como mulher simples que era, ao presenciar as escabrosas falcatruas urdidas pelo PT e prazerosamente encampadas por uma legião de seres sombrios e inescrupulosos (tendo à frente, seu esposo).
Passará à história como a primeira-dama humilde e desnorteada que nada deixou de relevante para a posteridade.

Martha Washington, esposa de George Washington, tornou célebre sua definição de primeira-dama: “Algo mais parecido com a vida de um prisioneiro do Estado, o qual deve aprender a viver dentro de limites os quais jamais poderá transpassar”.

À Marisa Letícia restará, durante muitos e muitos anos, a infeliz frase das “panelas” que, analisada mais friamente, é uma prova de sua lealdade visceral com uma família e um partido que preferiram trilhar a senda do crime e da corrupção. Pobre mulher. Que a morte lhe traga a paz de que tanto necessita.

  

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