A NAU DOS INSENSATOS.



A miséria humana parece não conhecer limites nem época. Entra século, sai século, tudo muda para tudo permanecer igual. Não importa o avanço tecnológico que tenhamos alcançado; a insensatez permanece viva e forte mesmo em mentes privilegiadas. A prova mais cabal disso tudo é a relativização moral e ética que determinados segmentos da sociedade e alguns de seus próceres adotaram no Brasil de 2016.

O crescente e assustador número de desajuizados e delirantes que desafiam o mais primário bom-senso viceja, arrogante, entre adolescentes e senis. Infelizmente, o que leva alguém a defender o indefensável ainda não pode ser explicado fora dos tratados sobre as enfermidades da mente.

Sebastian Brant (1457-1521), advogado, humanista e escritor alemão dedicou 112 capítulos de sua obra-prima “A nau dos insensatos”, publicada no longínquo ano de 1494, para discorrer sobre este tipo desconcertante de entidade. Aliás, cada capítulo dedicado a um deles. Todos empenhados na viagem sem volta à terra prometida de Narragônia – o reino da loucura.

Não será difícil para você, caro leitor, identificar personagens nacionais que parecem ter sido tomados como referência para a composição do texto de Brant.

“À dança dos parvos eu me uno, colocando-me na dianteira do desfile, pois vejo ao meu redor uma montanha de livros que não leio e nem consigo entender”. Em quem você pensou?

Ilustração original do livro feita pelo gravurista Albrecht Düres (1471-1528)

Que tal essa? “Quem espera ter poder no Conselho e se deixa levar pelos ventos que ora estão soprando torna-se uma rês no caldeirão alheio”. Lembrou de alguém?

Tem mais... “Quem aposta todas as suas cartas nos bens mundanos, esperando assim encontrar alegrias e alento, é um tolo da cabeça aos pés.” Como uma luva para empreiteiros, políticos venais e assemelhados, não acha?

Não é fácil encontrar o livro. Procurei nas principais livrarias e aparece sempre “Esgotado”. Minha pesquisa (penosa) foi feita em trechos de traduções da obra encontradas na internet (pdf).  

Os tipos de desmiolados expostos nas páginas de Brant são velhos conhecidos e percorrem toda a paleta das transgressões humanas: da falta de escrúpulos à mentira; da avidez por bens materiais ao desinteresse pelo cultivo do intelecto; da indolência à leviandade.

Para encerrar, Brant profere com atordoante lucidez premonitória:

“Os insensatos primários não podem ser condenados por sua insipiente insensatez. Estão destinados ao fogo do inferno aqueles, que tenham sido advertidos, insistem na sua tolice suprema ao invés de buscar o caminho da verdade e da sabedoria”.


Melhor do que qualquer marqueteiro político jamais poderia escrever...

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