O GIGANTE ENTERRADO.



Desde Freud sabemos o esforço que dá para enterrar lembranças indesejáveis. Nem sempre conseguimos. Algumas delas teimam em criar vida própria e nos aterrorizar pelo resto de nossas vidas. Quando uma delas consegue fugir da masmorra do inconsciente às vezes isso significa uma libertação. Nem sempre.

Nossa memória acessível guarda  as coisas de que necessitamos para transitar pelas armadilhas da vida. Confesso que a minha está mais fugidia do que nunca. É cada vez mais frequente o esquecimento de datas, nomes e fatos que me permitem chegar ileso ao fim do dia.

A outra memória é o pré-consciente. O jogo aí fica muito mais complexo. São aquelas lembranças do passado que teimam em desaparecer como uma cor indesejável nas escamas de um camaleão. Às vezes passam-se horas e até dias sem que me recorde de algo absolutamente irrelevante, mas que meu consciente me coloca como uma questão de vida ou morte. Sorte nossa que temos o Google: aliado incansável na nossa luta contra a demência prematura.

Estas duas memórias ,segundo nos ensina a psicanálise, guardam apenas um terço dos nossos arquivos. Precisamos de muito mais ajuda para arriscar entender como e porque os outros 70%  se espremem no quarto escuro do inconsciente. 

Na verdade, é lá que estão fatos, sentimentos e emoções que nos controlam e determinam quem somos. Sabe aquela experiência traumática da infância? Tá lá. E aquele desejo reprimido? Também. E aquele impulso que constitui fonte de indizível ansiedade por ser socialmente inaceitável? Idem.

O romancista nipo-britânico (nascido em Nagasaki) Kazuo Ishiguro (1954-) autor de “Vestígios do Dia” (1989) e “Não me Abandone Jamais” (2005) lançou neste ano o imperdível “O Gigante Enterrado”.  Terminei de lê-lo ontem e , confesso, tive uma noite insone. Não dá pra ficar imune ao livro.

Pra início de conversa os protagonistas são dois velhinhos Axl e Beatrice. Fato insólito em um mundo que insiste em apagar da história seres com mais de 70 anos. O pano de fundo é a era pós- Arthuriana em que bretões e saxões são obrigados a conviver apesar das terríveis lembranças do passado recente. A única forma de conseguirem é ter suas memórias apagadas por uma estranha névoa que paira sobre a ilha.
Metáfora perfeita para trazer à tona questões pouco confortáveis como:
 É possível ter paz no planeta quando o passado insiste em assombrar o presente? A resposta poderia ser respondida por todas as civilizações que teimam em perseverar conflitos originados nos porões dos tempos.

Trazendo a questão do coletivo para o individual é possível manter relacionamentos duradouros apesar das ocorrências de antanho? Ou será que a única saída para ambos os casos seria o extermínio das lembranças através de qualquer manobra mesmo que sobrenatural?

O eletrizante texto de Ishiguro construído sobre refinada técnica literária que nos remete à névoa de nossas próprias lembranças mal digeridas termina em uma encruzilhada sem resposta imediata. Talvez tenha sido essa a causa de minha noite mal dormida.


Além do passado de trevas ainda não totalmente dissipadas não é fácil ter que enfrentar um presente de incertezas com Dilma Vana, Eduardo Cunha,  Lula e seu entorno aterrorizante. Como ensina Ishiguro, sempre haverá indivíduos cujo único objetivo é perpetuar vantagens mantendo vivas velhas desavenças e ideias moribundas. O país precisa exumar este monstro enterrado.

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