O NANICO DO BRASIL.

Se você, caro leitor, precisa fazer um curso com Houdini para poder estacionar seu carro na garagem do prédio ou dos serviços de uma vidente para encontrar uma vaguinha qualquer nas ruas da cidade, sua chance de ser feliz no trânsito chegou. O Brasil vai entrar no mercado de microcarros. O projeto denominado “Nanico” será fabricado na cidade de São Gonçalo do Amarante a 60 km de Fortaleza-CE.

O Brasil, se tivesse feito as escolhas certas, já poderia ter uma marca automotiva nacional forte como a Hyundai sul-coreana ou como a Tata ou a Mahindra indianas.

Na Coreia do Sul de um passado não muito distante a vida era um inferno. A Guerra da Coreia entre 1950 e 1953 deixou o país em estado terminal. No início da década de 60 do século passado a renda per capita coreana era de pífios 160 dólares. No Brasil era de 300. Quase o dobro. Na década de 80 os coreanos nos alcançaram (PIB /capita em torno de 5000 dólares).

Hoje comemos poeira. A renda do cidadão sul-coreano é de 33 mil dólares. A do brasileiro patina em 16 mil. A Coreia do Sul quase não dispõe de recursos naturais mas fez a escolha certa. Como disse o professor Jasper Kim da Universidade Ewha de Estudos Internacionais de Seul, “a Coreia do Sul criou algo a partir do nada ao apostar no único recurso que tinha: seu povo”.

Voltemos ao sonho automotivo brasileiro. Já tivemos uma marca: a Gurgel. Fundada em 1969 pelo engenheiro homônimo, chegou a produzir 30 mil veículos em sua fábrica de Rio Claro, SP nos seus 25 anos de existência. Fechou as portas definitivamente em 1994. Enquanto gozava do IPI de 5% com a concorrência pagando 25% era vantagem comprar um Gurgel. Quando o governo resolveu estender o benefício para os demais fabricantes de carros 1.0 a coisa ficou insustentável já que o tosco Gurgel custava quase tanto quanto um Fiat Uno Mille.

O Nanico é um microcarro para duas pessoas dispostas ao desafio de se acomodar em algo com 1,90m de comprimento, 1,30m de largura e 1,50 de altura. Criado pelo designer brasileiro autodidata Caio Strumillo o projeto conseguiu interessar o físico Paulo Roberto da Conceição (Multiredesolarbrazil) e o engenheiro eletrônico Rafael Torre Jon (Green Power Solutions) que se associaram a Caio na Nani Car Indústria Automobilística para desenvolver a versão elétrica do modelo.
O carrinho terá opções a gasolina (R$ 15 mil), gás natural (R$ 18 mil) e elétrica (R$ 20 mil). Claro que se trata de um veículo de nicho com autonomia de 120 a 300 km dependendo da versão escolhida.

Além da doação de um terreno de 3 hectares, o governo do Ceará acena com redução de 75% no ICMS, redução de ISS e aporte de R$ 8 milhões.

O Nanico virá com transmissão automática e para se adequar à legislação brasileira terá freios ABS e airbag.

A Tata indiana lançou em 2009 o Nano para ser o carro mais barato do mundo focando no gigantesco mercado de famílias na base da pirâmide social do país e que se penduravam em motocicletas adaptadas para o transporte de pessoas e carga. O modelo de negócio não teve o sucesso esperado. Um dos motivos é o grave risco de lesões fatais para os ocupantes no caso de acidentes. O Nano não passou em nenhum teste de segurança e muitas ocorrências de incêndio também contribuíram para afastar os clientes. Se até 2017 o Nano não se estabelecer no mercado será desativado.

Disse Karl Marx que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. A Gurgel, ora vejam, ia transferir sua fábrica para o Ceará para se beneficiar de novos subsídios o que acabou jamais se concretizando.


Vamos torcer para que a história desse Nanico seja diferente.



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