A CAMINHO DAS TREVAS ( OU DE VOLTA À DÉCADA DE 60).


Só se você, caro leitor, estiver adentrado na terceira idade é que se lembrará de como era o Brasil na década de 60. Um dos exemplares de nossa precária indústria automobilística atendia pelo nome de Aero-Willys, um antigo e rejeitado projeto norte-americano, que por aqui ganhou o apelido de “Jipe de Casaca”. Computadores? Só em 1964 a IBM lançaria o modelo 360 com a estupenda capacidade de 32 k bytes.


 Está no Rio de Janeiro e quer fazer uma ligação telefônica? Terá que aguardar pelo sinal (tom de discar) por pelo menos meia hora. A Embratel, que deu um refresco nessa estória só foi criada em 1965. Internet? Não havia sido criada. Uma tal de Arpanet dava seus primeiros passos conectando algumas universidades estadunidenses e só.


Uma mulher infeliz no casamento teria que amargar entre quatro paredes sua vida de desventuras se pretendesse viver com um mínimo de dignidade. O divórcio só chegaria em 1977 e até lá toda cidadã separada era um pária social. Negros? Alijados e humilhados. Gays? Nem existia esta denominação. Melhor morrer no armário se não quisesse ser repudiado como um leproso.


Em 1962 o Brasil ganhou sua primeira (e única) Palma de Ouro em Cannes com o filme “O Pagador de Promessas” adaptado da obra homônima de Dias Gomes (direção de Anselmo Duarte). A história não poderia ser mais didática. Zé do Burro, um humilde cidadão tenta entrar em uma igreja carregando uma cruz para pagar uma promessa. O vigário não permite. O motivo? A promessa era para salvar a vida de seu animal de estimação (um burro, logicamente). O erro foi Zé ter feito a promessa em um terreiro de Candomblé. A mensagem era clara: um símbolo do cristianismo não poderia ser utilizado de uma forma “pagã”.


Pule para 2015. Parada Gay em São Paulo. Um transexual denuncia a condição de exclusão, perseguição e crueldade de milhares de cidadãos brasileiros nessa condição utilizando a metáfora da crucificação. A mensagem não poderia ser mais clara. Cristo que convivia com os excluídos pregando uma mensagem de amor, igualdade e caridade, ele mesmo crucificado pela intolerância, crueldade e ignorância romanas certamente rejeitaria esse tipo de atrocidade imposta a uma parcela de seu rebanho.


Mas, não foi isso que a seita fundamentalista que infelizmente prospera no Brasil do século 21 entendeu. Obnubilados por uma ignorância atávica e enrijecidos por uma despótica e radical interpretação (anticristã) da vetusta Bíblia entopem as redes sociais de mensagens odiosas. No Congresso, a malta dos terroristas religiosos descarrega ira por todos os esfíncteres e promete convocar suas hostes para aprovar uma tal de “Lei da Cristofobia”. Isso com o país soçobrando pela falta de leis eficazes que tolham os desmandos dos próprios parlamentares (que tal aprovar uma reforma política digna desse nome?).


E ainda. Que tal votar leis que nos resgatem do vergonhoso atraso nas áreas trabalhista, fiscal, tributária cuja letra atual expulsa a cada dia indústrias e empreendedores?


Como se não bastasse o retrocesso generalizado que nos foi imposto pelas políticas, crenças e valores equivocados desse governo bolivariano arcaico agora temos também que jogar na lata do lixo todo o avanço social e de costumes duramente conquistado pelas democracias seculares ao longo de décadas.


É o retorno das trevas! Tristes dias...Pobre país...

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