FACCHIN, O FAQUIR.

 
 
 

Os faquires são personagens admirados pelos juvenis de todas as idades. Sua mítica foi explorada, principalmente, em filmes e livros que retratam o exotismo do oriente via de regra retratando segredos e mistérios de uma Índia incompreensível aos olhos e sentimentos ocidentais. A questão pungente é: seriam os faquires ascetas que se especializaram durante décadas nas técnicas de superação e domínio da dor ou embusteiros ardilosos, doutores da mistificação, que usam elaborados truques para justificar uma autoflagelação sem limites?

O escritor francês Romain Puértolas lançou em 2013 um hilariante best-seller, fenômeno de vendas em seu país, A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário IKEA” sobre as peripécias de Ajatashatru Ahvaka Singh. Esse patético personagem começa convencendo sua aldeia a lhe pagar por uma viagem à França para adquirir uma cama de pregos de última geração a qual, segundo ele, somente podia ser encontrada na poderosa rede sueca mundialmente famosa por seus móveis de montar.

O périplo de Ajatashatru , claro, é repleto de falcatruas e trambiques de toda a ordem a começar pela nota falsa de 100 Euros que ele carrega no bolso. Como todo faquir que se preza, ele não resiste a experimentar um novo estágio de contorcionismo e fica preso dentro de um dos armários da loja. Daí por diante os leitores se deparam com um rosário de improbabilidades pontuado pelos mais macarrônicos eventos já que o armário e seu conteúdo são despachados mundo a fora.

Pois é. Por aqui, no país dos nervos à flor da pele que tem recorrido amiúde a panelaços terapêuticos por conta de uma indignação sem precedentes somos apresentados por Dilma Vana a um novo personagem que provoca nova subida no índice de cólera coletiva dos cidadãos. Quem é Luiz Facchin, o jurista pretendente ao mais alto posto da magistratura nacional?

Nunca em nossa história um indicado ao Supremo Tribunal Federal foi tão arduamente sabatinado pelos componentes da Comissão de Constituição e Justiça do Senado como forma de dar à sociedade uma resposta às convicções jurídicas, crenças e valores pessoais do candidato supostamente em desacordo com os requisitos indispensáveis ao preenchimento do posto.

A sabatina não foi conclusiva. Facchin esquivou-se habilmente de responder com clareza as questões mais polêmicas de sua biografia jurídica como um faquir adestrado nas mais sutis técnicas do contorcionismo corporal (e verbal) como só os mestres do media training sabem ensinar. O introito de apresentação teve direito à voz embargada e pausas dramáticas magistralmente colocadas a serviço da construção de uma imagem sensível e humana.

Não ficou claro a principal questão que trata da “reputação ilibada”, essencial para a ascensão à mais alta corte do país. Facchin, finalmente, é culpado ou inocente em relação ao exercício (proibido) da advocacia privada mesmo depois de ter se tornado Procurador de Justiça do Estado do Paraná em 1990?

O fundamentado parecer da Consultoria Jurídica do Senado diz que ele é culpado.

É público e notório o visceral engajamento de Facchin com o famigerado MST. No passado ele demonstrou, sem restrições, acolhimento à interpretação radical sobre “a função social da propriedade” para a defesa das invasões do movimento fora-da-lei. Na sabatina saiu-se com esse primor da dissimulação: “nem sempre acertamos...tomamos caminhos, fazemos reflexões”. Só faltou explicitar quais foram seus erros e para que destino esses tais “caminhos e reflexões” lhe conduziram.

Sobre as invasões dos títeres do bolivariano João Stédile às propriedades privadas, disse sem se enrubescer: “esses movimentos sociais que se deturparam, obviamente, são movimentos sociais que merecem o rechaço da ordem jurídica”.

Tergiversou sobre a questão da propriedade privada com o ardiloso estratagema da citação da letra constitucional em detrimento de sua aparente verdadeira convicção “o sistema a que devemos obediência no Brasil é aquele que prevê a propriedade como um direito fundamental e ressalva a propriedade produtiva”. Sim. E daí? O que nosso faquir realmente quer dizer com isso?

 Facchin ,outrora, apregoou a defesa de um modelo heterodoxo que equiparava o direito de amantes ao da esposa legitimamente constituída. Perquirido sobre o tema afirmou uma obviedade congênita “a família é a base da sociedade”. Isso sabemos todos senhor Faquir.

O truque mais arrebatador ficou para o final como sói acontecer nos melhores espetáculos “considero-me alinhado com pessoas que querem o progresso do país. Sou progressista nesse sentido, mas preservando direitos e interesses privados”.

Taí nosso Facchin Faquir - o encantador de serpentes e senadores suscetíveis. Esperamos que nos próximos atos não estejamos nós , cidadãos, no papel de engolir espadas e caminhar sobre cacos de vidro.

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