A CULTURA BLACKBLOC DAS MÍDIAS SOCIAIS.

 
João é um recém-graduado em administração por uma das melhores faculdades do país. Como ocorre nesses tempos de muita competição tem que se submeter à competição extremada com outros candidatos a uma vaga em uma empresa de primeira linha. Outros jovens tão talentosos quanto ele participam do processo de seleção. A escolha para uma das vagas disponíveis está se afunilando. João é o tipo de pessoa que possui uma  autoestima elevada e não se prepara como devia para a próxima rodada de testes. Para ele a vaga está no papo.

Janice, tão talentosa quanto ele, mas com um senso crítico sobre si mesma bem mais apurado o que a leva a empreender um esforço muito maior na sua preparação pessoal é a escolhida. João fica visivelmente frustrado. Acha-se injustiçado. Por pouco não perde o equilíbrio quando um dos avaliadores lhe dá como feedback que ele não investiu o suficiente na preparação de sua tarefa. Janice passa para a fase final de seleção. A alternativa que resta a João é sair da competição.

Quem viu ontem o The Voice Brasil sabe do que estou falando. O cantor Dom Paulinho dono de uma bela voz de barítono temperada com o suingue do soul e do jazz foi eliminado pelo seu técnico Lulu Santos porque esqueceu um pedaço da letra da música que escolheu pra cantar ( a lendária BR-3 imortalizada no V Festival Internacional da Canção de 1970 por Tony Tornado). Isso poderia passar quase imperceptível para a maior parte da plateia e dos espectadores, mas em uma acirrada competição onde o nível dos concorrentes era altíssimo fez toda a diferença.

Claro que nessa época de hiperconexão compulsiva em que todos se acham no direito de opinar e julgar as redes sociais se dividiram entre os apedrejadores e aduladores de ocasião. Como todos os que usam as novas mídias já sabem, neste território não há lugar para mais que dois tons de cinza (a autora inglesa Erica Leonard James morreria sem leitores se aqui resolvesse fincar sua bandeira).

A cultura tal como a conhecíamos dantes com toda a sua pompa e circunstância fruto de vastos compêndios em que podíamos saborear e comparar opiniões bem fundamentadas primorosamente urdidas em uma prosa hipnotizante morreu com a internet. Por que não ocorreria com a música?

Qualquer pessoa que exiba um mínimo de conhecimento e critério corre o risco de ser esquartejada em público pela malta ignorante que jamais leu um livro na vida e que se acha moderno e conectado o suficiente contentando-se em “postar” opiniões rasteiras tão desconexas quanto estúpidas.

O ícone da pop-arte , o estadunidense Andy Warhol vaticinou em 1968 que no futuro todos teriam 15 minutos de fama. O problema é ter que aguentar o discurso desses emergentes das redes sociais que seriam risíveis se não fossem tristemente patéticos.

Lulu está coberto de razão ao afirmar que quem não sabe jogar não desce para o playground. E isso vale para o nosso futebol troglodita, para os políticos pegos com a boca na botija e para  todos os  blackblocs  das ideias que infestam as mídias sociais ou antissociais desse país.

Divirtam-se nesse fim de semana.
 
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