O ESTRESSE DE KASSAB. SERÁ QUE OS POLÍTICOS NÃO APRENDEM NUNCA?


Certamente os nossos pais se lembram. Na década de 50 do século passado, havia um político paulista, chamado Adhemar de Barros cujos esquemas criativos de se apropriar do dinheiro público mereceram a denominação de “A Caixinha do Adhemar”. As coisas, ao que pareciam, eram feitas tão abertamente que o lema (informal, claro) de sua campanha  era “Rouba, mas Faz”.
Apesar da extensa folha corrida em crimes de corrupção, Adhemar gozava de grande popularidade entre os seus conterrâneos: foi prefeito da cidade de São Paulo e duas vezes governador do Estado.
O anedotário da época é farto em alusões ao estilo Adhemar de governar. Conta-se que em um de seus comícios pelo interior do Estado (há pessoas que garantem que o fato ocorreu na cidade de Jaú), o candidato Adhemar jactando-se de sua conduta honesta alardeou ao microfone:
“Neste bolso nunca entrou dinheiro do povo”.  Imediatamente alguém da plateia grita: “Tá de calça nova, Doutor?”.
A relação de escândalos da época Adhemar não faria feio se comparada aos atuais com a vantagem de que sempre traziam detalhes burlescos em suas falcatruas. Seriam sucesso garantido se fossem utilizados em qualquer roteiro de programa  televisivo atual.  
Mesmo após sua morte fatos inusitados vieram à tona. Um deles foi o caso “O Cofre do Adhemar”, onde supostamente ele havia guardado cerca de 2,6 milhões de dólares  corrigidos em moeda atual algo como 16 milhões)  e como manda a comédia bufa sobre o tema, confiara sua guarda à  ex-secretária e amante Anna Capriglione. Mas a coisa não termina aí. O conteúdo do cofre foi  roubado em 1969 por um comando do movimento guerrilheiro VAR-Palmares ( o mesmo que abrigara a presidente Dilma em suas fileiras).
Pouco mudou no jeito brasileiro de fazer política. Adhemar fez escola no país inteiro e não é difícil perceber alguns de seus “herdeiros” aboletados em todos os rincões nacionais. Paulo Maluf talvez tenha sido seu aluno mais devotado.  
O escândalo da hora tem como protagonista a Prefeitura de São Paulo. Óbvio que sua notoriedade se deve ao conjunto explosivo de elementos tais como: a visibilidade da cidade (nossa maior e mais importante metrópole), o tamanho do roubo (por baixo, meio bilhão de Reais) e seus mentores intelectuais (elementos do alto escalão da gestão Kassab, até então tido como um lírio de pureza ética).
Entre no Google e você facilmente acessará relatos de corrupção em virtualmente (desculpe o trocadilho) todas as grandes, médias e pequenas cidades do país. Sem distinção de região e coloração partidária.
O caso paulistano tem potencial para se tornar um novo paradigma. Em primeiro lugar, o atual prefeito Fernando Haddad possui o mérito da criação da Controladoria Geral do Município no começo deste ano. Em segundo, o ano eleitoral que se avizinha pode gerar a replicação do exemplo paulistano em outras cidades do país fruto de pressão popular ou de mero oportunismo político, não importa.
Haddad promete desbaratar o esquema que segundo ele, “é sistêmico” e possui tentáculos espalhados em outras áreas como, por exemplo, a cobrança do IPTU e o sistema de dívida ativa do município.
O  ex-prefeito Gilberto Kassab/PSD reagiu mal à investigação de Haddad que acabou respingando em sua gestão. Haddad tentou contemporizar dizendo que o “estresse” do colega é natural em casos como esse. Não é.
É incrível como os políticos ainda não se aperceberam que a sociedade dá mostras inequívocas de que começa a reagir à corrupção. Ao invés de tentar desqualificar o intento moralizador do seu sucessor declarando que isso ocorre para “encobrir o desastre que tem sido o primeiro ano da gestão Haddad”, melhor figura faria se cerrasse fileiras com seu colega no combate ao roubo desavergonhado do dinheiro público.
Ninguém aguenta mais a cantilena de políticos que se revoltam sobre sua honra ultrajada em declarações patéticas à plateia cujo objetivo é, tão somente, espalhar fumaça sobre fatos que acabam teimando em se mostrar verdadeiros.
Ao que tudo indica, ações tão elementares quanto eficazes como cruzar o patrimônio de servidores públicos com sua renda serão cada vez mais empregadas não como  vitrine moralizante do poder mas, sobretudo por causa da demanda crescente dos eleitores. E essa é uma excelente notícia.  

Boa semana !

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