AS TRAGÉDIAS QUE AMAMOS.

 
 
Na arte narrativa seja ela escrita ou visual, a catarse quase sempre se dá pelo confronto entre os sentimentos extremos que se opõem. Desde Sófocles (496-400  a.C) com sua tragédia Édipo-Rei ( Édipo bebê é abandonado com os pés amarrados para que morra e depois de ser salvo por um pastor é adotado pelo rei Pólibo e tempos depois ao consultar o oráculo de Delfos fica aterrorizado pela profecia de que deverá matar o pai para casar com a própria mãe).

Pulemos para Shakespeare (1564-1616) , suas tragédias não param de ser encenadas, filmadas, referenciadas, copiadas com todas as variações que seus temas possibilitam. Romeu e Julieta virou em 1961 o clássico musical estadunidense “Amor Sublime Amor” (originalmente West Side Story) direção de Robert Wise. No Brasil, em 2005, o filme “O casamento de Romeu e Julieta” dirigido por Bruno Barreto trata do mesmo tema.

Em “Hamlet”, escrito por volta do ano 1600, o rei da Dinamarca (Hamlet pai) é assassinado pelo irmão Cláudio (despejou veneno, ora veja, no ouvido da vítima) para usurpar o trono e se casar com a rainha sua cunhada. Hamlet filho vê a aparição do pai que lhe conta tudo e lhe pede para ser vingado.

Os autores trágicos se multiplicam de acordo com a nacionalidade dos leitores. Em Portugal temos Eça de Queiroz ( “O Primo Basílio” e “Os Maias”). Na Rússia temos Fiódor Dostoieviski (1821-1881) com  “Os Irmãos Karamasov” (1879) repleto das emoções e atitudes que nos fazem refletir sobre o que somos  (“ O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos”).

No Brasil, não dá pra ignorar o mestre da tragédia de costumes Nelson Rodrigues (1912-1980) que nos deixou boquiabertos com seu “Álbum de Família” (1945): o pai (Jonas) é um pedófilo contumaz, a cunhada (Rute) é apaixonada por ele, o primogênito (Guilherme) ama platonicamente a irmã (Glória); Edmundo (o segundo filho) é apaixonado pela mãe (Dona Senhorinha) o que o impede de se casar com Heloísa. E para encerrar, o terceiro filho Nonô (esse é louco de pedra) corre nu pela fazenda gritando como um animal ferido.

E aí desembocamos no folhetim das nove, atual sucesso da TV, “Amor à Vida” de Walcyr Carrasco. A trama é uma colagem de várias tragédias em várias épocas com todos os ingredientes que deixam os aficionados do gênero em êxtase e os que dizem odiá-la culpam a Globo por desnudar os desvãos mais profundos da miséria humana.

É uma mistura de Édipo-Rei e Rei Lear, com pitadas de Hamlet e várias colheradas de Nelson Rodrigues, para ficar na superfície. Freud se deliciaria de estivesse vivo juntamente com todos os estudiosos da psique humana.

De Édipo- Rei, temos o óbvio amor possessivo de Félix  por sua mãe Pilar e o ódio pelo pai César que por sua vez é um personagem rodriguiano, devasso emprenhador de moçoilas  e dono de um caráter sólido como uma mousse de maracujá. Félix é o vilão gay casado com Edith que por sua vez tem um filho secreto com o sogro César.

De Rei Lear temos a dupla de filhos, Félix de novo, Paloma (a favorita) e a sobrinha Aline que nutre por ele um desejo visceral de vingança tendo como pano de fundo a divisão dos bens do patriarca. A tia de Aline ( mãe biológica de Paloma) ao que tudo indica sofreu uma tentativa de assassinato (a mandado de César, talvez?).

Na trama secundária, o espírito de Nicole aparece várias vezes ao marido Thales após ter falecido literalmente aos pés do altar. Nada mais hamletiano.

Aos que criticam o folhetim, saibam que, desde sempre, a tragédia com todas as suas variantes mais estupefacientes faz parte intrínseca da natureza humana como forma de nos mirarmos e nos redimirmos no ritual catártico que hoje, em lugar dos teatros gregos, o fazemos diante da tela de nossas TVs.

Pouco mudou desde Sófocles, tenha certeza. Isso sem falar da assustadora tragédia "Medeia" em que ela simplesmente mata os filhos para se vingar do marido, Jasão.
Pilar não chegaria a tanto... 

 
Bom fim de semana e grande abraço.

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