2154. O ANO DO APARTHEID GLOBAL.


 
Aprendemos muito pouco com a História.

No século 18, o absolutismo de Luis XVI e a alienação de sua esposa Maria Antonieta levaram os franceses a derrubar um regime no qual o clero não pagava impostos, a nobreza não trabalhava, a oposição era encarcerada e morta na Bastilha e todo o sistema era suportado pelo sangue e suor dos trabalhadores, camponeses e da burguesia. Em 1789, mais precisamente no dia 14 de julho, a situação mudou. Caiu a Bastilha, rei e rainha foram guilhotinados, os bens do clero confiscados e os ideais  “Liberdade, Igualdade e  Fraternidade” (o mote da revolução), supunha-se, daria início a uma nova era de bem-estar a todos os cidadãos.

Ledo engano. Três anos após (em 1792) entra em cena uma nova fase de terror com Robespierre, Danton e Marat à frente de uma milícia justiceira que eliminava sem piedade qualquer voz discordante.

Na mesma Europa, no começo do século 20, a economia russa dependia majoritariamente do trabalho de um enorme contingente de trabalhadores rurais os quais, a exemplo de seus colegas franceses, sofriam as agruras de uma vida miserável ao mesmo tempo em que sustentavam com impostos escorchantes a nababesca vida do sistema czarista de Nicolau III. A situação chegou ao limite com o “Domingo Sangrento” - palco do assassinato de milhares de manifestantes pelas tropas do Czar.

Tudo parece se repetir com o mesmo roteiro. Em outubro de 1917, os bolcheviques, liderados por Lênin, iniciam a Revolução Russa que depõe e elimina a monarquia para depois com Stálin, entrar na fase da coerção brutal de tantos quanto divergiam do sistema. Como você vê, caro  leitor, o padrão de comportamento é recorrente na humanidade. Infelizmente.

Duzentos e vinte e quatro anos depois chegamos a 2013 com a França muito melhor apesar de François Hollande, dos descontroles orçamentários, de um nacionalismo que procura alijar os imigrantes e, é claro, do mau humor dos franceses  que parece ter origem na saudade do fausto perdido. Dizem que quem foi rei nunca perde a majestade, não é mesmo?

Agora, na Rússia, já democrática (pero no mucho), quem dá as cartas são os multibilionários industriais que têm a máfia como paradigma, e , claro, Vladimir Putin ex-espião da KGB que persegue adversários, patrocina regimes sangrentos que dizimam seus cidadãos com armas químicas e se intromete na vida privada atemorizando aqueles que lutam por preservar sua individualidade.

Os exemplos são cansativos.  No Brasil, tivemos a escravidão  (que de certa forma continua até hoje disfarçada de Bolsa-Família). Na África do Sul  tivemos o apartheid  (não totalmente superado como atesta o grande gueto do Soweto no sudoeste de Joanesburgo).

Nos Estados Unidos uma imensidão de imigrantes ilegais tenta uma vida mais digna do que as favelas miseráveis que proliferam nos  arredores latinos e alhures pode lhe oferecer.

Chegamos a 2154. Pertíssimo em termos de História. Pouco mais de 140 anos do presente.

Los Angeles virou uma mega favela que resume o estilo de vida de 99% dos habitantes do planeta. Já existe tecnologia para a exploração de exoplanetas como  vimos em Avatar já que a Terra transformou-se em um lixão ubíquo (não  por acaso a data em que se passa a ação é a mesma do filme de James Cameron).

Para o desespero da horda de desassistidos a polícia robotizada age como os militares da UPP da Rocinha (onde estará  Amarildo?).

A elite mundial vive em uma estação orbital que tem a forma do logotipo da Mercedes-Benz. Em Elysium (um misto de Dubai com Miami), todas as casas dispõem de um scanner  que detecta e cura qualquer tipo de enfermidade instantaneamente. Simples de operar como uma torradeira. Claro que na Terra o sistema de saúde parece o SUS brasileiro com seus médicos importados de Cuba.

Os dirigentes de Elysium repetem o comportamento dos políticos que conhecemos: estão se lixando para as pessoas do planeta e fazem qualquer negócio para manter-se no poder. O modelo de comportamento adotado em  Brasília parece ter sido benchmarking por lá.

Jodie Foster interpreta  a Ministra da Defesa Delacourt, algo como uma simbiose de Dilma Rousseff com Vladimir Putin. A única diferença é o terninho Armani e a fluência em francês (quando os americanos querem sugerir refinamento apelam invariavelmente para a língua de Marcel Proust).

O filme traz como novidade uma interpretação surpreendente do nosso Wagner Moura. A crítica do NY Times classificou de “fantastic”. Acho um pouco de exagero, mas quem sou eu para duvidar do NYT?  Para a crítica completa acesse http://movies.nytimes.com/2013/08/09/movies/elysium-sends-matt-damon-into-a-dystopian-future.html?pagewanted=all&_r=0

O filme também tem Alice Braga no papel de sempre.

O importante mesmo é que, mais uma vez, o cinema usa seu poder de persuasão para revelar às multidões (que não se interessam por este tipo de agenda) sobre os efeitos sócio-econômico-ambientais  desumanos e excludentes que tal comportamento político possa nos trazer.

No mais, é diversão garantida! Pode apostar.

Desejo a você, caro leitor, uma semana “Elísia”.

 

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