BOLE-BOLE É AQUI!


Vi Saramandaia na sua versão original nos idos de 1976. Dias Gomes sabia como falar com o Brasil dizendo coisas que o país conhece, mas custa a admitir. A ditadura militar ainda dava as cartas. O general Ernesto Geisel sancionava a Lei Falcão (assim chamada por ter sido urdida pelo então Ministro da Justiça Armando Falcão).  

 A estratégia era esvaziar a discussão política impedindo que a oposição obtivesse mais visibilidade já que gozara de um bom desempenho nas eleições de 1974 ( o MDB conquistara 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e a prefeitura da maioria das grandes cidades).
Nada de plataformas eleitorais, nada de reflexão sobre fatos e comportamentos sociais. Críticas? Nem pensar. Tudo o que se permitia era a foto, a legenda, o número e um espartano currículo do candidato.
 

 As garras da repressão permaneciam afiadas. O metalúrgico Manuel Fiel Filho foi arrancado de seu trabalho e levado para o temido DOI-Codi paulista onde foi torturado e morto sob a alegação de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro. Claro que a versão oficial dizia que Manuel se suicidara na prisão (a mesma estratégia usada um ano antes para explicar a morte do jornalista Vladimir Herzog). 

Mais adiante, três dirigentes do PCB foram mortos no bairro paulista da Lapa. Em agosto, o ex-presidente Juscelino Kubitscheck morreu em um misterioso acidente de carro na via Dutra próximo à cidade de Resende-RJ.  

Dias Gomes usou a metáfora da guerra entre duas famílias de orientações políticas diferentes em uma inusitada cidade do interior emulando o status quo da época. O retrógrado Zico Rosado, conservador até a medula, representava o partido continuísta (para passar pela censura, a questão principal era a mudança do nome da cidade de Bole-Bole para Saramandaia). Não é a toa que expelia pelo nariz formigas como se as falcatruas do regime não mais pudessem ser escondidas. 

O marketing que sempre espelha os comportamentos da época não poderia ser mais didático. Foi neste ano que surgiu a frase “Eu gosto de levar vantagem em tudo” como mote para o cigarro Vila Rica. O garoto propaganda era ninguém menos que Gérson, um dos ícones da seleção de 1970. Surgia a famosa “Lei de Gerson” para batizar um de nossos mais deletérios comportamentos sociais. 

Também em 1976, o Brasil re regozijava com o memorável feito do saudoso João do Pulo (João Carlos de Oliveira) medalha de bronze no salto tríplice das Olimpíadas de Montreal. 

Na música, Zé Rodrix alardeava seu orgulho em “Soy Latino Americano” não se sabe bem o porquê já que o continente continuava atolado em ditaduras cruéis. A Argentina passava pelo seu sexto golpe militar desta feita destituindo a “presidenta” Maria Estela Martínez de Perón pela junta militar liderada pelo general Jorge Rafael Videla. 

No Chile, o truculento Augusto Pinochet  dava início às Caravanas da Morte exterminando qualquer voz dissidente. Em 1977 já era condenado pela Comissão de Direitos Políticos da ONU pela sua contumaz crueldade com os presos políticos (20 mil assassinatos, 30 mil torturados e outros tantos “desaparecidos”).  

No Peru, Francisco Morales Bermúdez (outro general) apeou por golpe militar seu predecessor o também general Juan Velásquez. A ciranda de golpes e contra-golpes no continente foi magistralmente ironizada por Andrew Lloyd Webber no musical Evita. Quem viu deve se lembrar da coreografia da dança das cadeiras ocupadas por generais. 

Voltemos a Saramandaia: nossa forma de usar o show business para a crítica política e social. Só mesmo com personagens como João Gibão o vereador das asas escondidas sob as pesadas vestimentas, nosso X-Man tupiniquim, para comunicar a necessidade de alçarmos vôo acima da mediocridade vigente. 

O professor Aristóbolo,  pertencente ao partido conservador, em constante conflito ético tem mesmo que se transformar em lobisomem -seu alter-ego radical- como forma de expurgar valores que se provam cada vez mais inadequados. 

Como dizem os franceses Plus ça change plus ça reste la même chose (quanto mais se muda mais tudo permanece igual). Lula, o metalúrgico visionário defensor da liberdade política resolve acobertar um dos maiores escândalos da nossa história recente – o mensalão. Dilma sua sucessora , considerada gestora de méritos, cria 40 ministérios com gente incompetente  e adota postura ditatorial com o Congresso. 

Os “tucanos eméritos”, Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, defensores encarniçados da ética na política, são acusados de permitir o conluio de empresas privadas para fraudar concorrências ... 

Sérgio Cabral, do atual PMDB, nem de longe nos remete ao extinto MDB   de Ulysses Guimarães , cavaleiro andante da dignidade e da honestidade. Prefere rosetar em helicóptero oficial transportando familiares , cachorro e papagaio entre seu sítio de Mangaratiba e a cidade do Rio de Janeiro. 

Só nos resta explodir de raiva como Dona Redonda, fartos da ingestão de tanta iniquidade. Como vocês veem, Bole-Bole é mesmo aqui...   

 

Boa semana!

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