GRAÇAS A DEUS SOMOS LAICOS!

 

Os muçulmanos acreditam que se chegarem ao paraíso deitar-se-ão sobre leitos incrustrados com pedras preciosas onde virgens de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas serão companheiras amorosas para os justos. E você?

Os católicos creem que os maus perecerão eternamente no inferno.Um local de choro e ranger de dentes e de inescapáveis chamas acesas pela ira de Deus a consumir as almas pecadoras afligindo-as com sofrimentos indescritíveis sem chance de perdão. E você?

Os budistas asseguram que estamos todos presos em um ciclo de mortes e renascimentos- a Roda de Samsara -  até que nos libertemos do carma (ações de causa e efeito). Vamos transmigrando incessantemente de mundo a mundo ora sofrendo, ora lutando, ora evoluindo até a libertação final. O que você acha?

Os evangélicos pregam que o morto empreende uma grande viagem até que Jesus retorne à Terra para a ressurreição dos justos. Os que forem condenados serão lançados em um lago de fogo e enxofre onde permanecerão por toda a eternidade. Você acredita nisso?

Os espíritas discorrem que apenas mudamos de plano (do material para o espiritual); continuamos a ser exatamente o que sempre fomos e vamos, após a morte, para um lugar condizente com nosso nível vibracional. Alguns podem ir para locais de refazimento. Outros ficam presos às situações inferiores com as quais se comprazem. Todos deverão expurgar suas faltas em um ciclo de renascimentos. Faz sentido pra você?

Os Yanomamis acreditam que toda criatura seja ela pedra, árvore, bicho ou montanha possui um espírito que pode ser bom ou mau. A morte é tão somente uma via que percorremos para aprofundar o entendimento do universo – o Hutu Kara.  Que tal?

Os materialistas ateus não acreditam em vida após a morte. Para eles quando você morre você termina já que somos apenas matéria (um tipo de matéria que pensa). Simples assim e ponto final. Vai nessa?

Você, caro leitor, já percebeu aonde quero chegar. Desde que o homo sapiens existe sobre o planeta procuramos respostas às perguntas essenciais:

De onde viemos? Para onde vamos? Por que vivemos?

A filosofia, a ciência e as religiões tentam nos elucidar estas questões. Até agora (para aqueles que não possuem uma crença religiosa qualquer) não se chegou a nenhuma conclusão definitiva. Nem por isso as pessoas deixam de acreditar naquilo com o que mais se identificam. Até aí tudo bem. Se não fosse a arrogância e a sede de poder.

 Sim, porque as religiões ao longo da história da humanidade têm sido usadas para a coerção, a dominação e a guerra em nome de valores e crenças. Os exemplos se enfileiram assombrosos.

Durante as cruzadas no século XI a XIII, levas de cavaleiros cristãos foram despachados para a Terra Santa (atual Palestina) para libertá-la dos turcos muçulmanos (os quais,por sua vez, proibiam a peregrinação dos cristãos). Era a guerra contra os infiéis.

Na noite de 23 para 24 de agosto de 1572 os reis franceses católicos decretaram a morte de milhares de protestantes (os números variam muito) em um dos massacres mais sanguinários da história conhecido como a “Noite de São Bartolomeu”.

Exatos quatrocentos anos depois em 30 de janeiro de 1972 soldados britânicos (representantes do regime protestante) mataram 14 católicos na cidade de Derry (Irlanda do Norte) que  faziam parte de uma manifestação. Este evento ficou conhecido como "Domingo Sangrento" com direito à música Sunday Bloody Sunday do conjunto inglês U2. De novo, a religião no epicentro de um conflito que também possui componentes étnicos e políticos.

Nos último século o planeta foi cenário de centenas de conflitos e guerras religiosas todas seguindo o mesmo roteiro: minha fé é a única verdadeira e se você não se converter será exterminado. No topo da lista o eterno conflito árabe x judeus. Mas o ódio e a intolerância abrange todo o espectro das religiões conhecidas.

Não se trata de culpar as religiões em si, pois no cerne de todas elas está a busca do transcendental, do divino e dos códigos morais. A própria etimologia do termo diz tudo: vem do Latim “re-ligar”, ou seja unir o profano ao sagrado, o homem e a divindade, o material e o espiritual.

A questão central é que as religiões assim como qualquer tipo de instituição humana, estão sujeitas à personalidade (frequentemente doentia) e aos objetivos pessoais (geralmente poder e dominação) de suas lideranças. Estes indivíduos autointitulados pelo eufemismo “fundamentalista” ,através de seus comportamentos despóticos, intolerantes e sanguinários descambam para a corrupção, a subjugação e o extermínio de tantos quantos ousem contrariá-los.

A Declaração dos Direitos Humanos promulgada pela ONU-Organização das Nações Unidas em 1948 diz em seus artigos I e II:

Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Os países que estão no topo do desenvolvimento humano e social são todos Estados de Direito, ou seja: seus cidadãos são protegidos por leis que asseguram o exercício integral da cidadania sem vieses religiosos ou de outra natureza íntima qualquer.

É extremamente didático o pronunciamento do Ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello em abril de 2012:

 "Os dogmas de fé não podem determinar o conteúdo dos atos estatais e as concepções morais religiosas - unânimes, majoritárias ou minoritárias - não podem guiar as decisões de Estado, devendo, portanto, se limitar às esferas privadas”.

O Estado Laico – aquele que não se pauta por crenças religiosas – é uma das grandes conquistas das nações modernas, Brasil entre elas. É simplesmente inaceitável que religiosos de qualquer origem se utilizem de mandatos eletivos para impor suas crenças e valores ao conjunto da sociedade.  O absurdo supremo é perceber a tolerância de nossos congressistas à ação de setores fundamentalistas na condução de temas relevantes para um estado democrático, republicano e... laico.

Até porque, é o Estado laico o único que assegura a liberdade religiosa (mesmo dos fundamentalistas) como um dos direitos essenciais do ser humano. O que não dá é vê-los no Congresso e nas instituições do país tentando ,sorrateiramente, impor suas agendas de fé.

Eles deviam é dar graças a Deus por viverem sob um Estado laico.

Grande abraço fraternal e pacífico a todos de todas as crenças!

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