O NOJO DE ZECA PAGODINHO.

Há 65 milhões de anos ocorria aquele que talvez tenha sido o maior desastre natural do planeta. Um meteoro do tamanho da ilha de Manhattan colidiu com a península de Yucatán no México, abrindo uma cratera de 180 km de diâmetro. O planeta foi imerso em uma noite eterna e os dinossauros , extintos. 

Desastres naturais são comuns como um novo vírus de gripe a cada inverno. Ocorrem em todas as partes do mundo. Dizimam populações levando desespero e terror a tantos quantos são por eles subjugados.  

Em 1906, um terremoto de quase 8 graus na escala Richter destruiu a cidade de San Francisco nos Estados Unidos.   

Em 1970, um ciclone com ventos de inimagináveis 224 km/h varreu de Bangladesh 300 mil pessoas (se você acha este número assustador, saiba que em 1931 uma mega enchente na China exterminou 3,7 milhões de seres humanos).  

Mais recentemente, tivemos, em 2004, o tsunami no Oceano Índico que afogou  cerca de 230 mil pessoas na Tailândia, Indonésia e outras regiões do sudeste asiático. Em 2005, o furacão Katrina devastou 80% da cidade  estadunidense de Nova Orleans com cerca duas mil  vítimas fatais.   

Em 2011, a tríplice catástrofe terremoto + tsunami + acidente nuclear em Fukushima, no Japão, transformou uma enorme área densamente povoada em terra de ninguém.  

Dois anos depois, Nova Orleans já estava quase refeita, um novo e eficaz sistema de alerta de tsunamis foi implantado na Tailândia. A proverbial competência japonesa restaurou pontes, estradas e edifícios com a rapidez de um jogo de Lego. 

E no Brasil, além dos indefectíveis fogos de Copacabana na virada do ano, cenas de cidadãos em desespero por terem seus parcos recursos arrasados pela força das chuvas previsíveis de verão tomam de assalto a tela da TV.  

Somos um país que não aprende.

No biênio de 1888/1889 uma seca de proporções infernais assolou metade do Nordeste. O imperador Dom Pedro II, ao constatar in loco tamanha devastação e miséria de seus súditos exclamou “Se preciso for venderei até a minha coroa para que nenhum sertanejo padeça de fome”. 

Sabemos  todos que a seca é um conhecidíssimo fenômeno natural . De Dom Pedro II à Dilma do PT não fomos capazes de criar nem usar nenhum tipo de tecnologia  para mitigar os seus efeitos. A seca atual, que é uma das mais severas dos últimos anos, encontra a obra de transposição do rio São Francisco, obviamente, atrasadíssima e super- faturadíssima (situação, aliás, semelhante à que se relegam nossos aeroportos, rodovias, portos, hospitais e escolas). 

Não sei se você, leitor, se recorda que o Papa João Paulo II, em uma de suas passagens pelo Brasil ao visitar uma favela no Rio de Janeiro, tirou do dedo seu anel papal e doou-lhe  para que fosse leiloado tão impressionado que ficara com a situação de pobreza dos nossos concidadãos cariocas.  Hoje, vemos na TV  o governador Sérgio Cabral assustado como um desabrigado a balbuciar chavões lamuriosos que mal disfarçam a inexistência de um plano de gestão ambiental digno desse nome. 

A gestão ambiental nacional é igual a zero. Há décadas as enchentes castigam os moradores de São Paulo sem previsão de uma solução definitiva. As nossas tragédias climáticas estão longe de ser apenas o  resultado de intempéries anunciadas. Elas são, principalmente, o resultado de um conjunto de descalabros típicos de uma sociedade inepta, incompetente e tolerante ao erro. Barracos se empilham em áreas de risco? Nenhum poder público os detém. Encostas escorregam sobre casas que não deveriam estar ali? A culpa é da meteorologia.

Toneladas de lixo entopem bueiros metropolitanos? Só resta à fúria das águas represadas cobrar a imprevidência da população deseducada que vai continuar a jogar lixo nas ruas e chorar nos albergues dos sem-teto da estação. 

Em janeiro de 2011 a região serrana  fluminense enfrentou uma das piores tragédias climáticas urbanas que se tem notícia no país: 918 mortos, 215 desaparecidos e centenas de desabrigados. Nenhum trabalho sério de prevenção foi executado. Os recursos foram desviado e malversados  pelos mesmos de sempre que continuam impunes. Casas prometidas continuam em construção ou no papel sem a mais remota previsão de entrega. E assim vamos de enchente a enchente.

O fato novo deste dilúvio em Xerém é o cantor Zeca Pagodinho percorrer as ruas da comunidade em seu  quadriciclo vermelho motorizado com o semblante horrorizado e declarando às câmaras de TV que tem nojo dos políticos. 

Brad Pitt foi mais pragmático. Mandou construir, do próprio bolso, casas para os desabrigados do Katrina no bairro mais destroçado de Nova Orleans o Lower Ninth Ward. As chamadas “Casas Pitt”, como foram chamadas, são construções sustentáveis projetadas por arquitetos renomados. Mesmo assim, os beneficiados criticaram alegando que as casas são por demais “fashion” e não têm nada a ver com a “cultura local”. 

Ontem na TV, uma moradora de área de risco disse ao repórter que estava feliz por que sua casa foi entregue pelo governo do Estado do Rio com  três anos de atraso, sem piso e rede hidráulica. “Melhor do que nada”, resigna-se. 

Pra você ver que cada país tem o povo, os políticos e as personalidades que merece.
 
 
Desejo a todos vocês, caros leitores, muito sucesso e alegrias em 2013.

De brinde pra você: O desabafo de Zeca Pagodinho.


 

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