A VIAGEM – CLOUD ATLAS – PARTE 2.


Se você não sabe ainda, você é um filósofo. Todos nós somos. De uma forma ou de outra.

Filosofia não é um misterioso mundo alheio à realidade vivido por entidades exóticas que fazem da divagação um meio de vida. Filosofia é o que todos praticamos quando pensamos na vida. Ao questionar raciocinando sobre as questões fundamentais que nos afligem desde que encaramos o sol neste planeta há 200 mil anos estamos fazendo filosofia.

Leia qualquer filósofo. Fale com qualquer pessoa. Você encontrará não mais que três questões essenciais que encasquetam as mentes desde sempre:

1. De onde viemos?

2. Para que vivemos?

3. Para onde vamos?

Três áreas do conhecimento humano tentam responder estas questões: a filosofia, a religião e a ciência. As três não são necessariamente  excludentes. Muito pelo contrário. A ciência acaba de confirmar a  existência do Bóson de Higgs ou a “Partícula de Deus“ (para mais detalhes, leia neste Blog “Deus, o Natal e o Bóson de Higgs”). A grande  questão ainda não foi respondida (não pela ciência): qual o fato gerador do Bóson de Higgs?  Sim. Porque os filósofos estão carecas de saber: não há efeito sem causa. E quem responder que o universo veio do Big Bang, a questão continua a martelar com mais impertinência. E quem ou o que gerou o Big Bang?

A filosofia tem dominado o terreno da ética, da moral, da justiça e das interrelações dos seres humanos nos seus diversos arranjos sociais.

A religião é um dos elementos mais viscerais, persistentes e influenciadores da vida humana. Por isso mesmo tem provocado as reações mais apaixonadas e extremadas. De uma coisa não se pode fugir. Os cientistas sabem que o “nada” não existe posto que o “nada” não poderia gerar algo tão belo, complexo e sujeito a leis inequívocas como o universo.

É este nosso ponto de partida para falarmos do filme “A viagem” (The Cloud Atlas- Além das Nuvens, no original) baseado no romance de mesmo nome do escritor inglês David Mitchell (1969) publicado em 2004.

Considerado por muitos produtores de cinema como “infilmável” devido sua intrincada estrutura narrativa que entrelaça as vidas de seis personagens principais (e algumas dezenas de secundários) em diferentes épocas, países e contextos, o roteiro tenta se manter fiel à técnica literária do autor apagando fronteiras, misturando eras , superpondo indivíduos e, claro, gerando com isso grande desconforto ao espectador que está acostumado à linearidade dos repetitivos filmes de ação compulsiva.

O filme é superlativo em tudo. São quase três horas de duração (melhor seria se durasse no máximo duas horas e meia, o padrão para superproduções deste nível). Somente o custo de produção ultrapassa os cem milhões de dólares (o maior orçamento de um filme independente até hoje). O roteiro é dos irmãos Andy e Lana Wachowski  -“Matrix”. A direção é de Andy Wachowski  e Tom Tykwer - “Corra Lola, Corra”.

Cada ator/atriz interpreta pelo menos umas quatro personagens diferentes. O trabalho de caracterização e maquiagem é impressionante. Se você quer saber quem interpreta o que não vá embora até que as luzes da sala se acendam.

David Mitchell em entrevista a Carolyn Kellog do Los Angeles Times explicou que criou para cada  personagem uma “autobiografia” verossímil a partir dos temas que mais preocupam a humanidade : sexualidade, espiritualidade, trabalho, dinheiro, linguagem e posição social.

“Almas atravessam as eras como nuvens atravessam os céus e no entanto nem a forma nem a tonalidade nem o tamanho da nuvem permanecem inalteradas. Embora sejam nuvens são também almas. Quem poderá dizer de onde vêm e para onde vão as nuvens amanhã? Somente Sonmi, o leste, o oeste, a bússola , o atlas e ,ora veja, somente um atlas feito de nuvens” .

Se ficou hermético demais para você , o discurso do autor está ancorado na interconexão e na conectividade de tudo o que nos cerca. O meteorologista estadunidense Edward Lorenz  a partir da Teoria do Caos já propusera um sistema de equações matemáticas com o objetivo de modelar a evolução do clima. A expressão “O efeito borboleta” ficou famosa pelo formato geométrico das equações de Lorenz que remetia a uma borboleta. No limite, o simples bater de asas de uma borboleta  no Brasil poderia desencadear um furacão na Malásia.

Pois bem, o filme traça as múltiplas conexões entre seis personagens em um período de 472 anos. O início de tudo está em 1849 com o advogado Adam Ewing (Jim Sturgees) enviado ao sul do Pacífico pelo sogro para negociar a compra de mão de obra escrava. Este fato se conecta no ano de 1930 com a vida do compositor Robert Frobisher (Ben Whishaw) que influencia ações da jornalista  Luisa Rey (Halle Berry) em 1970 e impacta nos dias atuais o trabalho do editor Timothy Cavendish (Jim Broadbent). Mas são as personagens  do futuro , o clone Sonmi-451 (Doona Bae) que é explorada como garçonete-escrava na Seul do ano 2144 e o sobrevivente da catástrofe final que destruiu o planeta no ano de 2321, Zachry (Tom Hanks) que realmente balizam os aspectos filosófico-transcendentais do filme.

O filme nos remete a outros clássicos da ficção científica com algumas citações que serão reconhecidas pelos viciados em cinema.

Como disse Sócrates “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância. Mas eis a hora de partimos, eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto os deuses.

Entenda como quiser.

O tema merece uma postagem posterior, mas por enquanto ficamos por aqui.

Grande abraço.

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