TAPEM OS OUVIDOS. O COMISSÁRIO VAI FALAR!


Uma das coisas mais chatas e inexplicáveis nesta época digital em que vivemos é o discurso de comissários de bordo em qualquer parte do mundo. Você já deve ter passado pela excruciante experiência de ouvir dialetos incompreensíveis que vagamente se parecem com uma língua de origem anglo-saxônica, ou no vetor oposto, alguém que fala uma língua de origem anglo-saxônica  tartamudeando sílabas que possuem uma distante sonância com algo remotamente latino.

São raríssimos os casos de profissionais da aviação que falam idiomas estrangeiros com a clareza que nossos ouvidos merecem. A sobrecarga de ondas danosas em nosso córtex auditivo por estes ruídos de origem desconhecida fazem com que, momentaneamente, preferíssemos a surdez absoluta.

Por que não usar uma gravação de boa qualidade falada pelo nativo na língua em que se quer comunicar? Hoje, é possível realizar a edição de áudios  de maneira quase ilimitada. Esta tecnologia que opera milagres poderia ser usada para aumentar a vida útil de nosso sistema auditivo posta em risco pela vocalização esdrúxula que recebemos  nos aviões de qualquer bandeira.

O horrendo sotaque, a dicção esganiçada, o ritmo e tonalidade de uma bateria desafinada quando aliadas à mesmice do discurso, tornam aqueles minutos iniciais da viagem tão confortáveis quanto um colchão de mandacaru. E isso é  universalmente  compartilhado por todas as empresas aéreas do planeta colocadas no mesmo saco sejam elas grandes  ou pequenas.

Agora, em relação ao serviço, nem sempre as companhias de baixo custo precisam receber uma avaliação de bar beira-de-estrada. Tomemos a Southwest Airlines: a maior empresa do mundo neste segmento que transporta cerca de 135 milhões de passageiros  em uma frota de 706 aviões (dados de 2011).  Pra você ter uma ideia do que isto representa, a nossa Gol, já computando os números da recém adquirida WebJet, transporta quase cinco vezes menos (cerca de 30 milhões de passageiros em 124 aeronaves).

Pois bem, a Southwest está classificada pelo ranking da Airline Quality (http://www.airlinequality.com/StarRanking/3star.htm) como uma companhia três estrelas, no mesmo patamar de serviço de uma KLM, SAS ou mesmo TAM que não são de baixo custo.

Ouvi de uma senhora um depoimento que beira o surrealismo sobre o serviço da WebJet (agora Gol). Ela precisava tomar um remédio e ingenuamente pediu à comissária um trivial copo d’água. Em resposta recebeu a indagação se estava disposta a pagar pelo copinho de água mineral que lhe seria trazido. Conversei com um comandante da Gol sobre o caso e o ouvi dele a constrangida reflexão de que “essa política estava indo longe demais”. Sensatamente o comandante concordou que o estrago que este pão-durismo extremo tem causado na imagem da empresa não compensa os trocados que ela recebe com tão impopular medida.

Na verdade, devido ao duopólio do qual somos vítimas na aviação comercial brasileira (TAM e Gol abocanham 87% do mercado nacional) , a Gol há muito não se comporta mais como uma companhia de baixo custo cobrando passagens tão ou até mais caras que as da TAM se aproveitando da falta de opção dos brasileiros.

 Falta concorrência nos nossos ares. Você sabe que a lei que rege o setor não permite que empresas estrangeiras operem voos domésticos.   Até quando esta miopia nacionalista continuará nos prejudicando?  Dizem as empresas locais que não poderiam concorrer com as estrangeiras. Pura balela já que ao operarem no país, estas empresas estarão sujeitas às mesmas regras que vigoram no mercado.

O que elas querem mesmo é a reserva de mercado despudorada para encobrir suas incapacidades e chancelar uma gestão de negócio que visa, em última análise, extorquir o passageiro. Aumenta a demanda? Simples. Elas retiram aviões das linhas para poder cobrar mais pela escassez premeditada.

Quando os grandes eventos de 2014 e 2016 chegarem e a demanda aumentar ainda mais, viajar no Brasil será tão caro quanto um bilhete de ida e volta para Beijing. 
Enquanto isso, nos ares onde existe verdadeira concorrência, as empresas se superam na arte de inovar nos menores aspectos, tudo para fazer com que o passageiro se esqueça de que voar pode ser,eventualmente, igual a encarar uma turbulência. Se você voar Gol e precisar tomar seu remédio para a pressão é melhor embarcar com uma garrafinha d’agua se não quiser ter um enfarte com o preço do copinho...
De brinde pra você:
Se você acha que não é possível inovar nesta área, veja o vídeo abaixo. Trata-se de um comissário de um dos voos da empresa norte-americana Southwest Airlines conseguindo o que não parecia ser possível: obter aplausos ao finalizar os avisos aos passageiros.
Agradeço à minha cara leitora Silvia Maria Rangel Ribeiro pela indicação do vídeo
 

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