PSICOPATAS - PARTE 2


Ninguém conhecia melhor uma mente transtornada do que Alfred Hitchcock. Não era preciso injetar milhões de dólares em efeitos visuais para deixar a plateia catatônica. Ele, com um filme cujo orçamento era de inimagináveis 800 mil dólares para os dias atuais, rodado em preto e branco, conseguiu fazer com que muita gente jamais tomasse banho com a cortina fechada. Foi exatamente por isso que Marion Crane, interpretada por Janet Leigh, não percebeu a aproximação de Norman Bates (no único papel realmente importante de Anthony Perkins) e diluiu-se na banheira após múltiplas facadas.

Há muita lenda sobre Psicose, lançado no Brasil em 1960, mas asseguram os biógrafos de cinema, que Miss Leigh, após rodar esta cena, passou meses sem encarar um chuveiro.

Norman Bates não é um psicopata. É um esquizofrênico. O manual básico de doenças da mente nos ensina que a esquizofrenia é um transtorno caracterizado por delírios, alucinações, e comportamento desorganizado.

Conhece aquela pessoa que sorri de uma maneira estranha faz trejeitos sem estímulos aparentes? Tem tudo para ser um esquizofrênico. Ele anda a esmo, tem dificuldade de concentração e perde momentaneamente a memória durante a incidência das crises. A alucinação mais comum ao esquizofrênico é a auditiva. Norman “ouvia” sua mãe e com ela falava. Em suas crises agudas assumia a persona materna (delírio de identidade).

Tá certo que está cada vez mais difícil definir o que é normalidade comportamental hoje em dia. Os excessos da tecnologia e as novas ferramentas de socialização estão a empurrar os limites dos transtornos mentais para fronteiras arriscadas.

Já pensou uma página do Bates Motel no Facebook  promovendo um final de semana inesquecível com direito a hidromassagem no apartamento?

O psicopata não tem emoções. Não tem afeto. É incapaz de sentir amor ou compaixão. Não se conecta com o outro, pois não tem a capacidade de sentir o que o outro sente, de tentar imaginar o que acontece ao vê-lo sucumbir por suas crueldades.

O psicopata é capaz de, sorrindo, negar o impossível mesmo com todas as evidências contra si. Não esboçará a mais remota culpa por ter prejudicado milhões de pessoas ao desviar dinheiro da Prefeitura de São Paulo para uma conta em Jersey. Conhece alguém com esse perfil?

Já o esquizofrênico, possui  emoções em excesso. Tem os nervos à flor da pele. Reage intempestivamente aos estímulos externos. Surta ao se sentir traído em sua sensibilidade sendo capaz de atos espetaculosos. Nesse auge, delatará crimes compactuados como o pagamento de propina para a compra de consciências no Congresso Nacional. Aparecerá com hematomas no rosto e, claro, dirá com peculiar eloquência que se trata de uma queda na escada. Lembrou-se deste protagonista?

Negar o inegável, ser impermeável a qualquer tipo de sentimentos, não se sentir culpado das atitudes mais deletérias, banalizar comportamentos criminosos, tiranizar corações débeis e hipnotizar mentes desatentas com discursos convincentes. Eis o psicopata político em sua plenitude.

A psiquiatra brasileira Ana Beatriz Barbosa da Silva, autora do livro “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado”, nos traz uma visão desconcertante da psicopatia nacional.  Seu raciocínio é translúcido ao discorrer que o tipo de gente que rouba a merenda escolar, vende o sangue da transfusão, desvia a verba dos medicamentos, superfatura casas populares são os exemplos definitivos da psicopatia crônica.

Eles ignoram, cinicamente, as leis. Distinguem claramente a nocividade de seus atos. Calculam racionalmente a relação custo-benefício da atividade delinquente e vão em frente. Seguros, confiantes, impiedosos.  Creem na substituição dos valores convencionais pelos seus próprios – os valores psicopáticos.

Sociedades que toleram a impunidade, relativizam ações criminosas, acobertam preconceitos, banalizam a violência nutrem a psicopatia política e social.

E os psicopatas? Quando desmascarados dizem que tudo não passa de uma armação da mídia conservadora e que são eles, coitadinhos,  vítimas da incompreensão das elites que tentam obscurecer seus passados de feitos gloriosos... Já ouviu esse discurso antes?

Agora você já sabe do que se trata ao ouvi-los.  

Desejo a todos vocês, caros leitores que me prestigiam com sua carinhosa atenção, um radiante fim-de-semana.
 

De brinde pra você uma entrevista da Dra. Ana Beatriz no Programa do Jô.
 
 

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