MARKETING E PRECONCEITO – PARTE 2. A EMPRESA DO COELHO COR-DE-ROSA.


Não é de hoje que as empresas investem fortunas para divulgar seus produtos. As que atuam no segmento de produtos de beleza, higiene e limpeza do lar, então, nem se fala. Uma pesquisa rápida nos mostra que todas querem uma fatia do enorme mercado representado pelos países emergentes. A P & G (Procter & Gamble) dona de dezenas de marcas que você certamente conhece, considerada a maior do mundo em sua área, com faturamento anual de inacreditáveis USD 83 bilhões ( mais que  o PIB da Croácia) não está brincando em serviço nestes mercados.  No Brasil ,seu crescimento em 2011 foi de estratosféricos 32%, o melhor da empresa desde que aqui chegou.
Desnecessário dizer que essas companhias são disputadíssimas pelas agências de propaganda e só trabalham com la crême de la crême  do meio.  Não se chega a esses patamares ignorando a etnografia do mercado e suas idiossincrasas , certo? Errado!
Pegue uma das últimas revistas brasileiras ( de Veja a Caras). Você vai encontrar uma milionária campanha da P & G ,de cinco páginas , mostrando apenas pessoas brancas.
Não passa pela minha cabeça que o departamento de inteligência de mercado dessa multinacional desconheça o perfil etnográfico do Brasil. Tampouco sua agência- a Publicis.
Segundo dados do censo de 2010 do IBGE, a população brasileira é de 190.732.694 pessoas. Destas, os brancos são menos da metade (48,2 %). As demais etnias (classificadas pelo IBGE como parda, negra, amarela e indígena) representam 51,8%  ou seja: 98,8 milhões de brasileiros.
Pesquisa recente do IBOPE sobre os hábitos de consumo da emergente Classe C, relata que ela constitui 43% da população. O perfil étnico-social da classe C nos informa que ela possui  57%  de afrodescendentes e pardos. Uma conta simples nos leva ao total de cerca de 47 milhões de pessoas com essas características certamente consumindo Gillette, Ariel, Vick, Koleston, Duracell ... alguns dos produtos da P & G.

Entrei no site da Gillette. Foto de um homem caucasiano. No site da Ariel. Rosto de uma mulher alvíssima. No site do Vick (sou fã do Vick). Um senhor constipado e pálido como a Lua. Arrisquei o site da Koleston. Todos sabem que as mulheres brasileiras são as mais preocupadas  com cabelos no planeta. Decepção. Lá estava um rostinho branco. Não satisfeito fui para o site da outra linha de tinturas – a Soft Color. Sorriam para mim não uma , mas quatro garbosas moças brancas orgulhosas de suas novas tonalidades capilares.

Você pode achar que estou brincando, mas fui, num ato final, ao site da Duracell. Quem estava lá? Um coelho. Cor de rosa!
E olhe que o presidente anterior da P & G era um egípcio moreno chamado Tarek Farahat que deve ter sido guindado a voos mais altos por sua lucrativa gestão no país. O novo presidente é o pernambucano Alberto Carvalho. Um simpático senhor calvo de 46 anos e com sólida experiência internacional. Desde 2007 era o vice-presidente da Gillette para mercados emergentes trabalhando em Boston-EUA.  Disso se pode concluir que a empresa acredita na diversidade: o que é ótimo!

A P&G tem no Brasil 4.200 funcionários distribuídos em 6 fábricas sendo uma delas em Salvador-Bahia. Fico imaginando uma bela afrodescendente baiana folheando a revista Caras e não se vendo representada no caríssimo anúncio de sua própria empresa. Se você consegue uma explicação convincente para isso tudo me fala que eu aqui não consigo atinar.

Marketing e preconceito são incompatíveis. Simples assim!

De brinde para você: o tal coelho rosa da Duracell!

 

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