SURPRESO COM DEMÓSTENES TORRES? NÃO DEVERIA...

Cena 1
Josué é policial de carreira. Ao longo de seus quinze anos de atividade viu de tudo: meliantes ricos, investigadores pobres, bandidos de farda e sem farda. Até então tem resistido incólume como um lótus no pântano. Mas, as recentes notícias de sua corporação não são nada boas. Não há plano de carreira, o salário é aviltante e os riscos da profissão só aumentam. Josué recebeu uma proposta tentadora de um traficante. Se aceitar, vai ganhar em um dia o equivalente a oito anos de trabalho.

Cena 2
Cunha Jr. é vereador. Elegeu-se por ter abraçado a causa da moralidade e da cidadania. Jovem e idealista conseguiu o que parecia impossível: conquistar votos apenas por seu consistente trabalho comunitário sem depender de financiamentos de campanha e arranjos espúrios. Júnior como é chamado, contraria poderosos interesses de especuladores imobiliários através de seu projeto de lei que implica em mudanças no zoneamento urbano . O projeto goza da simpatia de ampla faixa dos eleitores.
Júnior recebeu uma proposta milionária para alterar alguns pontos críticos de seu projeto de lei. Se concordar estará recebendo dinheiro suficiente para não precisar mais trabalhar.

Cena 3
Joelson acaba de ser promovido a comprador júnior de sua empresa - uma empreiteira do ramo da construção civil. O salário é bom, mas poderia ser melhor. Joelson está de casamento marcado para daqui a seis meses e não terá dinheiro suficiente para montar sua própria casa. A saída será morar com os futuros sogros. Um novo fornecedor lhe ofereceu uma boa grana se ele ”facilitar” a venda de um determinado produto. Era o dinheiro que lhe estava faltando para viabilizar seu casamento.

De Aristóteles a Nietzsche as opiniões pendulam entre a natureza boa e má do ser humano. Santo Agostinho, Thomas Hobbes, Freud e Xun Zi partilham a crença de que o homem é mau por natureza.

Santo Agostinho é definitivo nesta matéria ao declarar que “o homem tem um déficit moral e por isso não consegue cumprir plenamente sua natureza racional”.

Para Freud, somente as forças civilizatórias podem conter os desejos maus e destrutivos do ser humano. As tais forças a que Freud se refere são as leis, as normas de conduta, as punições. Enfim, o alto preço a pagar pelo deslize praticado.

Não será surpresa se generais, senadores, garis, vendedores autônomos você e eu possamos praticar atos reprováveis alguma vez ou várias vezes na vida. Está no DNA humano. Demóstenes Torres imaginou que um celular habilitado nos Estados Unidos seria suficiente para mascarar sua verdadeira natureza. Ninguém deveria se surpreender de seus atos. Nem de sua hipocrisia. Casos semelhantes são incontáveis aqui e alhures.

O grego Diógenes de Sínope (413-323 a.C.) ficou famoso por sua obstinação na procura de um homem que vivesse segundo sua essência. Ele percorria as ruas de Atenas durante o dia com uma lanterna acesa buscando encontrar um homem que não se submetesse à prisão representada pelo dinheiro, luxo e conforto.

A história conta que Diógenes ao encontrar Alexandre, na época o mais poderoso homem vivo, este disse a Diógenes que ele podia pedir o que quisesse que tal lhe seria concedido. Diógenes pediu que Alexandre saísse de sua frente ”pois estava tapando o sol”.

A revista Veja desta semana traz em suas páginas amarelas uma entrevista com Pedro Simon, um de nossos mais icônicos senadores. À pergunta de como o PMDB se transformou na marca do fisiologismo Simon responde:

“Deus me perdoe, mas é porque os bons homens se foram: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Miguel Arraes, Mário Covas. Se esses tivessem ficado e outros tivessem morrido, o Brasil seria diferente”.

Não seria. Para que o Brasil seja diferente é preciso instituições saudáveis, leis que desestimulem mal-feitos e uma sociedade vigilante que não aceite a impunidade de delitos condenáveis.

Em última análise é a sociedade (eu, você e todos os brasileiros) que precisa querer construir um país diferente. Tudo o mais é uma ilusão de carnaval.

Pense nisso nesta Páscoa ( que por sinal significa passagem).

Grande abraço.

Reveja o diálogo "Demóstenes - Carlinhos Cachoeira"

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