O NOVO RITMO DA SOCIEDADE BRASILEIRA.

Guido é um diretor de cinema em crise de criatividade. Existe toda uma equipe pronta para rodar sua próxima película e ele não consegue sequer concatenar as ideias sobre o que fazer.

A crise fica cada vez mais profunda. Agora é o subconsciente de Guido que faz emergir o grande iceberg de suas mazelas psicológicas, fruto de uma infância atribulada, de uma mãe permissiva, de um pai ausente, para falar o mínimo.

Guido tem uma relação doentia com as mulheres (principalmente). Humilha sua esposa com a presença de uma amante vulgar. Manipula os empresários das atrizes como se fossem fantoches irremediáveis. Mente, dissimula, agride, maltrata. Enfim, faz tudo aquilo que caracteriza a mitologia do diretor de cinema despótico e cruel.

Está tudo em “8 ½” , obra prima do cineasta italiano Frederico Fellini (1920-1993). Eu tinha 14 anos quando o filme foi lançado. Vi e revi diversas vezes já adulto.

“Oito e Meio” fala de todos nós. Do que somos. Seres em constante batalha para nos tornarmos “morais”. Nem sempre conseguimos. E aí estão Carlinhos Cachoeira, o goleiro Bruno ( assassino de Eliza Samúdio), Edemar Cid Ferreira (lembra do Banco Santos?), o juiz Lalau, e uma interminável lista de delinquentes de todos os estratos sociais batendo à nossa porta para provar nosso imenso potencial para o malfeito.

São as instituições, as leis, as normas, os códigos que procuram nos conduzir para o estágio da civilidade que se encontra acima do fosso da barbárie generalizada. É assim que a coisa rola. O resto é diversionismo barato.

Algumas nações já aprenderam a duras penas o custo da alienação social. Outras progridem lentamente. Esse parece ser o nosso caso.Contudo, já podemos contabilizar alguns progressos inquestionáveis na nossa transformação política e moral.

Há duas forças novas no Brasil atual. Uma, é a imprensa que decidiu tornar-se a maior aliada do processo purgativo de nossa democracia recente. Outra, são os movimentos organizados de pressão social que utilizam a tecnologia da informação e da comunicação em rede para protestar e propugnar por mudanças no status quo. Não é pouca coisa.

Hoje você pode participar de “n” abaixo-assinados que visam à mudança de leis, criação ou revogação de outras.Para a implantação do “Voto Distrital” o movimento “Eu voto distrital” já amealhou 123.821 assinaturas para um total demandado de 200.000.

O Twitter, Blogs de todo o país e o Facebook recebem adesões cotidianas para pressionar o STF no julgamento imediato do “Mensalão”. É a inovadora “petição virtual” dos internautas.

As edições dominicais do “Fantástico” da Rede Globo denunciam os privilégios da Assembleia Legislativa da Amapá, do Maranhão, a rede de corrupção nos hospitais do Rio de Janeiro, as mutretas dos municípios pernambucanos na expropriação do dinheiro público. Ficamos todos estarrecidos ao saber que, dos 184 municípios de Pernambuco, 159 respondem a algum tipo de processo no Tribunal de Contas daquele Estado. Ou seja: 86% deles!

Saiba você, que a situação não é muito diferente em outros Estados da federação. A novidade aqui é a nova “Lei da Transparência” de junho de 2009, que alterou a "Lei de Responsabilidade Fiscal". Essa lei determina que, a partir de junho de 2010, a União,Estados e Municípios com mais de 100 mil habitantes são obrigados a criar “Portais da Transparência” disponibilizando em tempo real, todas as informações necessárias ao acompanhamento da gestão do dinheiro público.

A revista Veja, a cada edição, nos informa didaticamente sobre a parte podre e pretensamente oculta dos políticos de todos os matizes ideológicos.

Ontem mesmo, entrei em mais um abaixo-assinado pedindo a votação urgente de uma lei mais severa contra os crimes do trânsito provenientes de motoristas bêbados e drogados.

Hoje, recebo outro pedido para pressionar o Congresso Nacional a revogar sua extensa lista de privilégios que nos afrontam. Assinei na hora.

Outro movimento faz a pressão para o fim do voto secreto dos parlamentares já que esta emenda está engavetada no Congresso desde 2006. Temos ou não temos o direito de saber como votam os representantes que elegemos? Saiba que a absolvição da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), pelo plenário da Câmara, só foi possível por causa do voto secreto.

Também, ganha corpo, o movimento que exige a extensão da “Lei da Ficha Limpa” para todos os cargos públicos.

Nada está imune. Setores da sociedade se articulam para pressionar sobre a redução dos privilégios do Judiciário (férias de 60 dias para juízes e etc.). A questão em pauta é que nossos profissionais do judiciário são servidores como outros quaisquer e que estamos muito longe da sociedade imperial que tinha no magistrado um representante da elite intelectual plena de vantagens diferenciais. É... Os tempos mudaram.

E já que estamos em uma democracia, é legítima (embora arcaica) a pressão da CUT contra a aprovação do projeto de lei que regulariza os funcionários terceirizados. Essa é outra mobilização em pauta. A diferença é que a CUT já está careca de saber como usar os mecanismos de pressão social para conseguir seus intentos.

Mas, agora, parece que todos estamos nesta onda. A pressão popular veio pra ficar.Lembra da “Ficha Limpa”? Me diga qual liderança partidária era favorável à aprovação desta lei? Nenhuma. A Ficha Limpa só foi aprovada porque mais de 2 milhões de pessoas exerceram uma pressão sem precedentes no Congresso.

Esse é o novo ritmo que a sociedade brasileira está impondo. Quem não se adequar a ele vai “dançar”. Não é essa uma excelente perspectiva?

Desejo a todos muito sucesso na semana e engajamento por um país melhor!

Grande abraço.

Vejam aqui uma excelente resenha sobre o filme "Oito e Meio". Você verá por que e como Fellini fala de coisas que estão no nosso "iceberg" particular.

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