É A CULTURA, ESTÚPIDO!

Há várias questões não resolvidas em nosso país que têm origem na “cultura” do nosso povo. Mais cedo ou mais tarde (melhor, mais cedo) teremos de enfrentá-las.

Cultura é o amálgama que nos une a todos, de Norte a Sul. É o que distingue um povo. É o seu DNA. Pode ser um brasileiro descendente de alemães do Rio Grande do Sul, pode ser um brasileiro descendente de indígenas do Amazonas ou um brasileiro miscigenado do sertão do Nordeste. Todos têm na cultura brasileira um denominador comum. Fernando Henrique Cardoso dizia que “tinha um pé na cozinha”. A escritora Lya Luft disse: “Não quero jamais ter de morar longe do Brasil”. A Paraguaia Larissa Riquelme declarou que “não nasceu brasileira por engano”, tanto que se identifica com a cultura do nosso país.

Mas que cultura é essa? Há a parte boa e a parte má. A boa você já sabe: nossa alegria de viver, nossa capacidade de dar nó em pingo d’água (expressão que nos retrata culturalmente à perfeição). A parte má é nossa inconsequência, nossa irresponsabilidade, nosso desapreço pelo “bem-feito”, por normas, regras, sistemas, planejamento, pela pontualidade, pelo respeito às leis.

Este forte traço cultural que permeia a maioria de nosso povo nos atrasa neste mundo global. Aprisiona-nos no medievalismo das ideias, nos empurra ladeira abaixo na civilidade, na cidadania.

Tive o privilégio recente, por causa de um trabalho para um de meus clientes, de entrevistar algumas das cabeças mais lúcidas do setor de transporte de cargas e passageiros. Meu cliente queria conhecer opiniões consistentes sobre a questão da segurança no transporte. Leia algumas das respostas:

“A questão da segurança é cultural. Quando você joga alguma coisa contra a cultura de um povo é remar contra a maré. Nós temos que ter essa consciência. Você não vai conseguir melhorar a questão da segurança se você não remar forte contra a maré. Não basta uma boa campanha. Não basta um bom discurso. Tem que ser na marra, porque você está mexendo contra a cultura e as pessoas.”

“A questão cultural se prende muito ao fato de que ninguém acha que segurança seja um problema seu e sim do país, do governo, dos outros”.

“No dia em que você chegar à minha empresa e perguntar ao motorista o que ele faz pela sua própria segurança e ouvir dele: eu uso o cinto de segurança, eu me preocupo com minha jornada, eu me preocupo com a manutenção do meu caminhão, enquanto o meu caminhão não estiver em condições eu não saio, quando eu tiver sono eu paro, eu digiro no máximo ‘ x’ horas. Quando o meu motorista falar isso pra você é porque, realmente, minha empresa estará fazendo segurança.”

“O principal problema da falta de segurança é o projeto educacional do país que, lamentavelmente, é falho. Além de o cidadão ser um mau condutor de veículos ele normalmente não é um bom cidadão. Ele tem problemas de identidade com a cidadania, com o próximo, com compromissos morais e físicos. Isso, em grande parte, deve-se ao processo educacional nosso que é profundamente falho”.

“Nosso grau de civilidade é muito baixo. Em algum lugar você tem que iniciar este processo. Isso ocorre porque faltou escola, faltou família, faltou sociedade, faltou igreja, faltou sindicato, faltou tudo aquilo que ajuda a formar uma cabeça, formar cidadania”.

“Uma coisa importante é que as pessoas precisam trocar de Deus. A gente tá aqui imaginando que a tecnologia nos levará ao paraíso. Isso nunca vai acontecer. Sempre haverá falhas. Você pode pegar o período do desenvolvimento humano que quiser. O que vai sempre fazer a diferença é a forma como o operador e o usuário final de qualquer sistema de transporte se comportam. Seja ele o motorista, o mecânico ou o cliente que utiliza o serviço. É o comportamento humano que sempre fará a diferença”.

“Pecamos, no Brasil, por falta da cultura da auditoria, do controle estatístico, da mensuração. A coisa tem que funcionar assim: primeiro temos que ter ‘procedimentos’ ( que indicam o que eu quero obter), segundo temos que ter o ‘treinamento’( que ensina como deve ser feito) e terceiro temos que ter a ‘auditoria’( que mede a eficácia do sistema). Simples assim. Só que poucos o fazem.”

“ O comportamento das pessoas é o aspecto mais importante. Temos levantamentos que comprovam que 90% dos nossos problemas ligados à segurança são comportamentais. Os operadores e motoristas costumam usar uma desculpa qualquer para justificar os problemas que eles mesmos causam”.

“ Nós levamos muito a sério a questão da segurança e damos todos os tipos de treinamento, palestras, reciclagens, fazemos auditorias, blitz e o que se possa imaginar. Mas, isso não muda a cultura de nossos funcionários. Eles -como todos os brasileiros de um modo geral- se acham super-heróis, imunes a qualquer risco. E aí, por exemplo, o cara que teve ‘n’ cursos de segurança, chega em casa e sobe no telhado de chinelo havaiana para ajustar a antena da TV e cai e se quebra todo. Segurança no Brasil deve ser encarada como uma catequese!”

Troque a palavra “segurança” por outra qualquer que nos aflige com igual ou maior intensidade como “educação” ,”consciência política”,”impunidade” que as declarações acima ainda fazem todo o sentido.

Entendeu por que a parte má de nossa cultura não nos leva a lugar nenhum?

A todos, vocês, caros leitores, um repousante final de semana.

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