OS DOIS COELHOS QUE QUEREMOS ELIMINAR NESTE PAÍS.

Hamlet - Ato 1 – Cena 2

Rei — Por que sempre o teu rosto com essas nuvens?

Hamlet — Nem tanto, meu senhor, o sol me aquece.

Rainha — Despe-te, bom Hamlet, desse luto, e deita olhar amigo à Dinamarca. Não prossigas assim, de olhos caídos, a procurar teu nobre pai na poeira. É lei comum, tu o sabes; quantos vivem, passam da natureza para a vida da eternidade.

A Dinamarca que o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) descreve em Hamlet , sua mais encenada tragédia escrita entre 1599 e 1601, está afundada na corrupção.

O rei Hamlet foi envenenado enquanto dormia, por seu próprio irmão Cláudio que se casa apressadamente com a viúva do rei morto – Gertrude, mãe de Hamlet-filho, o príncipe, usurpando, deste modo, o trono.

Está montada uma teia das mais pérfidas emoções e atitudes humanas: assassinato, incesto, roubo, traição, vingança e corrupção.

O texto está repleto de frases famosas como “Ser ou não ser, eis a questão”. Mas aquela que traduz bem o âmago da peça é “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, proferida ao final da quarta cena do primeiro ato por Marcelo, um dos cavalheiros da guarda real.

Os tempos mudaram. Na Dinamarca de hoje a corrupção praticamente não existe. No ranking “Índice de Percepção da Corrupção -2011”publicado pela ONG Transparência Internacional , ela ocupa o segundo lugar como um dos países menos corruptos do mundo logo atrás da Nova Zelândia, a primeira colocada.

Segundo Marie Chêne, coordenadora da pesquisa, a Dinamarca não é perfeita. O que a coloca nesta excelente posição é um conjunto de fatores como: a repulsa da sociedade dinamarquesa à corrupção, leis severas, sistema judicial atuante, imprensa livre e mecanismos de controle eficazes. Mas, são os cidadãos - que atuam como os sentinelas perpétuos de atos moralmente indefensáveis- o verdadeiro antídoto anticorrupção.

A grande maioria dos brasileiros encara a corrupção sob uma dessas premissas:

1. Eu não me importo.

2. Não adianta lutar contra. É da índole do nosso povo.

3. É um problema social com base na falta de educação e na desigualdade.

4. É algo inerente à condição humana. Todo mundo tem um preço.

Com base no item 3 alguns setores da sociedade como intelectuais de esquerda, e certas facções religiosas têm prestado um enorme desserviço ao combate eficaz deste mal. O cinema nacional até bem pouco tempo vinha promovendo este perigoso equívoco.

Enquanto no cinema estadunidense os policiais são retratados (majoritariamente) como guardiães dos valores morais e éticos da sociedade, no Brasil eles assomam às telas como achacadores dos desviados e torturadores dos que fazem do crime uma forma de ascensão social. Você acha mesmo que o traficante Nem seja o Robin Wood da Rocinha?

Bem, após Tropa de Elite 1 e 2, o cinema brasileiro parece ter parado de tomar alucinógenos. O sucesso deste filme é a catarse que o incorruptível Capitão Nascimento cria na plateia ao tratar bandido como bandido. Conectividade emocional na veia!

Agora, o cinema nacional nos apresenta outra faceta do pensamento humano que, queiramos ou não, está subjacente em qualquer sociedade: se a polícia e o sistema são corruptos cabe ao cidadão de bem agir por conta própria. Quem não se lembra de Charles Bronson (1921-2003) no papel do pacato arquiteto Paul Kersey que sai à caça dos facínoras que mataram sua mulher e estupraram sua filha no clássico “Desejo de Matar”? O sucesso foi tanto que foram lançados mais cinco filmes com este personagem.

É aí que entra o novíssimo filme “Dois Coelhos” mais uma inusitada produção do cinema nacional. Dirigido pelo estreante Afonso Poyart, nos conduz por uma frenética montanha-russa de surpresas criada com um único objetivo: ativar nossa rede neural para o perigoso sonho de que podemos, nós mesmos, fazer o que as instituições não fazem: eliminar sumariamente criminosos contumazes e políticos corruptos.

A novidade é o roteiro fragmentado e uma estética diferente daquela a que estamos acostumados (só em pós-produção levou-se 1 ano e meio). Mas, o principal mérito da trama é mostrar o risco social que representa para uma nação ser refém de um sistema no qual o crime compensa. E se, amanhã de manhã, o pequeno comerciante cansado de ter sua loja roubada por menores delinquentes saísse atirando em todo adolescente suspeito?

E se, ao invés de preparar o jantar da família, a dona de casa que pegou a filha fumando maconha, jogasse sua camionete sobre o quiosque do bairro que sabidamente é um ponto de vendas de drogas?

Que tal se o cidadão que paga impostos, cansado de vê-los drenados para os bolsos de políticos corruptos, se transformasse num homem-bomba e explodisse uns 30 deputados no Congresso Nacional?

Infelizmente, não se muda uma sociedade deste modo. Será mesmo preciso passar pelo demorado, mas consistente processo da transformação individual que provoca a transformação grupal que desemboca na transformação coletiva.

O crime que alimenta a corrupção é a ponta visível do iceberg. Os 90% que estão submersos são constituídos pelos valores dominantes da sociedade e pela integridade de suas instituições. O resto é efeito especial.

Grande abraço e votos de sucesso neste mês que se inicia.


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