O VERDADEIRO EMBRIÃO DA GREVE DA BAHIA.

Suponha que você trabalha em uma empresa que possui o monopólio da prestação de um serviço altamente perigoso , mas imprescindível à sociedade. A falta de concorrência faz com que os gestores dessa empresa explorem ao máximo os seus funcionários. Não existe plano de cargos e salários. Cada pessoa recebe aquilo que dá na telha do gestor. O mesmo ocorre com os benefícios disponibilizados que, por sinal, são mínimos.

Plano de carreira? Pura ficção. Outras funções semelhantes no mercado, sujeito à concorrência, recebem salários muito maiores - isso sem falar nas possibilidades de crescimento decorrentes de um sistema de avaliação por desempenho cujas regras são justas e do conhecimento de todos.

O comitê de funcionários (formado pelos mais corajosos, é claro, pois os demais têm medo de perder seus empregos) propôs à direção da empresa um plano básico de cargos e salários que elimine a situação de penúria e arbítrio a que estão submetidos.

A direção promete avaliar a reivindicação, mas como não tem a menor intenção de fazê-lo, vai empurrando indefinidamente com a barriga.

O aumento do custo de vida e as ambições naturais de desenvolvimento humano obrigam os funcionários desta empresa a toda sorte de malabarismos como a duplicação da jornada de trabalho em “bicos” os mais diversos, a utilização de crédito bancário caro ou mesmo recorrer a agiotas despudorados.

Já se passaram quatro anos e a direção desta empresa ainda não tem uma resposta às reivindicações de seus colaboradores. É importante salientar que os funcionários da empresa em questão não podem se organizar em sindicatos. O que fazer?

Já deu pra perceber que estamos falando do “modelo de gestão” a que submetemos nossos policiais militares. Nossa Constituição proíbe expressamente a greve e a sindicalização de militares (inciso 4 do artigo 142 da carta de 1998). Este conceito é estendido aos militares dos Estados, sejam eles bombeiros ou policiais. Mas, isso não significa que eles não possam, na prática, fazer paralisações. Segundo Paulo Blair, professor de Direito da Universidade de Brasília, “a democracia permite manifestações até de quem está contra o sistema constitucional desde que a pessoa, posteriormente, se sujeite à punição prevista em lei”.

O jurista vai além ao dizer que "as autoridades precisam entender que a penúria de uma classe pode levar a conflitos graves como esses”. E que penúria!

O salário médio de um soldado de 1ª. Classe no país é de apenas R$ 2.120,00. O Estado que menos paga a seus soldados é (veja só!) o rico Rio Grande do Sul. O soldado gaúcho recebe R$ 966,00 por mês de trabalho. O brasiliense recebe o maior salário do país: R$ 4.269,00. Ambos arriscam a vida do mesmo jeito e estão sujeitos às mesmas regras. Se você tiver a curiosidade de conhecer a grade salarial de policiais militares de todo o país acesse http://www.salariospm.xpg.com.br/

Enquanto isso, um vereador baiano embolsa R$ 9.200,00 a título de vencimentos, mais R$ 3.000,00 de ajuda de custo para alimentação e combustível e, pasme: R$ 45.000,00 de verba de gabinete (para contratar até 22 apaniguados os quais, na prática, não realizam absolutamente nada em prol da população).

No Paraná, a coisa ainda é pior. Na Câmara de Vereadores de Curitiba, um motorista padrão 102 ganha R$ 8.566,00 por mês. Um verdadeiro deboche à sociedade (e aos policiais militares, é claro). No Paraná, um soldado de 1ª. Classe ganha meros R$ 2.438,00.

Desde 2008 tramita no Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional batizada de PEC 300, cujo objetivo é estabelecer um piso salarial nacional para policiais e bombeiros. O absoluto desinteresse do governo e de seus aliados em votar tal proposta tem levado os policiais militares de todo o país a um profundo estado de indignação.

Parece que a classe cansou de esperar e partiu para uma verdadeira estratégia de guerrilha. O que está acontecendo na Bahia é tão somente o reflexo do sentimento generalizado dos policiais militares de todos os quadrantes do país cansados de serem tratados como mão de obra de quinta categoria.

Em meio a tanta displicência dos parlamentares manipulados pelo governo, surge a surpreendente declaração do Deputado Federal Romário (PSB-RJ):

"Tem coisas que só acontecem na política. E hoje, mais do que nunca, tenho certeza disso. Uma PEC que tramita na casa há quatro anos, não foi votada essa semana porque os parlamentares alegaram falta de tempo hábil para concluir se ela é positiva ou negativa para o povo. Tem quatro anos que essa PEC tramita na casa e não tiveram tempo de decidir se é boa ou ruim? Pediram para que a votação aconteça depois do carnaval. Será que, o que não conseguiram resolver em quatro anos, vão conseguir resolver em duas semanas?"

O Brasil não tem nem nunca teve uma estratégia minimamente consistente para a educação, a segurança e a saúde pública. Essa é a verdade. A população majoritariamente alienada e desinformada (vide a escabrosa opinião de uma tal de Silvia Fernandes – a Sheeva- no Facebook jorrando preconceito, burrice e crueldade contra os baianos em geral e os seus policiais em particular) apenas se limita à indignação passageira quando a mídia reverbera os horrores que afligem os profissionais dessas áreas essenciais.

Enquanto isso, em Brasília, a Presidente Dilma se empenha como nunca dantes havido, na aprovação do projeto do trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo, algo que vai precisar do aporte financeiro do governo em cerca de 30 bilhões de Reais ( o restante, de mais uns 30 bilhões será assumido pela iniciativa privada se houver interessados, bem entendido).

Eu também adoraria poder dizer lá fora que os emergentes da sexta economia do planeta agora podem viajar de trem-bala.

É tudo uma questão de prioridade. Parece que para a população em geral só restam mesmo as balas-perdidas.

Grande abraço e conexões positivas a todos!

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