MARKETING & PRECONCEITO

Que o preconceito é odioso, sabemos (quase) todos.Geralmente movido a “dogmas” sem qualquer fundamento científico baseado na ignorância e no obscurantismo.

O marketing brasileiro, a despeito de ser um dos maiores interessados na diversidade por conta da possibilidade de conquistar públicos em todo o espectro social apresenta-se, a uma década de distância do finado século passado, em pleno século 21, alienado, inconsequente e dessintonizado.

Se você entrar nos sítios da Avon no Brasil (slogan corporativo: “The company for women”) não encontrará, nem na sessão de maquiagem, o rosto de uma bela afrodescendente, ou outra qualquer representante de etnias que não a caucasiana.  Se tiver paciência, observará após alguns minutos de espera dentre os efeitos do banner principal, a aparição em segundo plano, de uma desglamourizada  foto de uma modelo afrodescendente totalmente fora de contexto.  

Muito melhor é o sítio norte-americano da empresa. Logo na primeira página, uma belíssima modelo afro ao lado de outra, caucasiana, atraem clientes de todas as etnias com um sorriso hipnotizante.

Tentamos  O Boticário (slogan corporativo: “A vida é bonita, mas pode ser linda”).
Decepcionante. Nem nos setores do sítio dedicados a mulheres, homens, maquiagem, boticário na web, nada de afrodescendentes, nem de orientais, nem de qualquer outra etnia. Tentamos a página sobre a nova linha Make B. O competente Fernando Torquatto, maquia uma linda modelo branca de olhos verdes como se nosso padrão étnico fosse dinamarquês ou sueco.

Vamos para a Natura (slogan corporativo: “Bem estar bem”). Nada de nada! Deixamos para trás o sítio sobre produtos e investigamos a área corporativa. Após uma sensível introdução feita pelos presidentes do conselho Antonio Seabra e Pedro Luiz Passos procuramos a área “Gestão de Pessoas”.
Todas as fotos com contentes e orgulhosos funcionários brancos. Chamou-nos a atenção uma página sobre “Próximos Líderes” na qual a companhia fala de seu programa de trainees. Advinha qual a etnia de todos os fotografados? Acertou quem respondeu: caucasiana!
 É uma perigosa meta-linguagem a insinuar a supremacia de um determinado estrato étnico-social. Já vimos este filme antes e ele não acabou bem... 

Resolvi visitar uma área do mercado essencialmente masculina: o mundo dos caminhões pesados.
Comecei com a Mercedes-Benz do Brasil (slogan corporativo “A marca que todo mundo confia”). Claro que os grandes astros são os caminhões. Não é razoável supor ver fotos de modelos apesar de que caminhões não andam sozinhos (ainda) e que seria no mínimo simpático a utilização de algum rosto humano retratando o motorista: esse bravo bandeirante do século 21.
Nada! Tentamos o banco de imagens corporativas. Das 15 fotos mostrando atividades fabris, todos os funcionários são brancos. Nem um moreno. Mulato? Fora de questão.

Próxima parada: Scania (slogan corporativo: “Tudo por você”). Esmiuçamos o Portal do Cliente, o Blog do Caminhão, o Banco de Imagens do RH, a Capacitação dos Profissionais da Rede e até o Espaço do Fã. Parece que o “tudo por você” só se aplica a homens brancos! Por que nenhuma imagem representativa da etnia dominante no meio caminhoneiro que é flagrantemente miscigenada em nosso país?

Última parada: Volvo do Brasil (slogan corporativo “Movidos pela energia, paixão e respeito pelas pessoas).
Tenho uma relação de cumplicidade com a Volvo do Brasil onde trabalhei por 24 anos. Lamento perceber que a diversidade, um dos mais incensados valores corporativos da Volvo não está documentada nos materiais da empresa. Tentei quase todas as áreas do sítio da Volvo no Brasil. Do “Relatório Sócio-Ambiental” ao “Patrocínios e Apoios”. Detive-me na área “Diálogo com Públicos Estratégicos”.

 Nenhum afrodescendente, nenhum oriental, nenhum grupo étnico tipicamente brasileiro. Ilustrando um dos valores mais caros da empresa - o respeito ao meio-ambiente- uma fotogênica mão caucasiana acariciando uma árvore.  Frustração... 
Vamos aos fatos.

Para a  Avon, O Boticário e Natura. 

Segundo dados do censo de 2010 do IBGE, a população brasileira é de 190.732.694 pessoas. Destas, os brancos são menos da metade (48,2 %). As demais etnias (classificadas pelo IBGE como parda, negra, amarela e indígena) representam 51,8%  ou seja: 98,8 milhões de brasileiros.
Pesquisa recente do IBOPE sobre os hábitos de consumo da emergente Classe C, relata que ela constitui 43% da população. O perfil étnico-social da classe C nos informa que ela possui  57%  de afrodescendentes e pardos. Uma conta simples nos leva ao total de cerca de 47 milhões de pessoas com esta característica.
Incrível! Estas pessoas não têm a menor possibilidade de se verem retratadas nos sítios da internet de empresas como Avon, O Boticário e Natura.
Lembrete: o número de computadores cresce rapidamente na Classe C , cujos consumidores são majoritariamente jovens, bem informados e aspiram a um novo status social.

Para a Mercedes-Benz, Scania e Volvo 

Pesquisa do Instituto WCF-Brasil, de 2005 nos informa que 36,1% dos caminhoneiros são pardos e afrodescendentes. A grande maioria (67,5%) pertence à classe emergente C. Não encontrei  dados precisos  e atualizados sobre o contingente de caminhoneiros que atua no Brasil. Utilizarei um dado médio dentre várias fontes que indica a existência aproximada de 2 milhões de profissionais estradeiros no Brasil.
Isso nos leva a cerca de 720 mil pessoas das etnias negra e parda.  
Claro que o universo de indivíduos que atuam no setor de transporte brasileiro é muito maior e inclui empresários, funcionários e terceirizados. Segundo o Guia da TRC, o número de empregos gerados pelo setor de transporte de cargas no Brasil é de 2,5 milhões. Aplicando o índice do IBGE teremos quase 1,3 milhões de pessoas afrodescendentes e pardas neste total.
Nenhum deles se vê representado nos sítios da internet de fabricantes de caminhões.

Lembro-me de um poema do  “Livro do Desassossego”, escrito por Bernardo Soares , um dos heterônimos do inigualável poeta português Fernando Pessoa.

“Há em olhos humanos, ainda que litográficos, uma coisa terrível: o aviso inevitável da consciência, o grito clandestino de haver alma”.

 Senhores marqueteiros. Não adianta suas empresas publicarem gloriosos slogans corporativos sem que suas ações dêem respaldo aos seus modernos valores. Todos eles idealizados para a inexorabilidade da conexão “urbi  et  orbi” do século 21.
Agora só falta botar em prática.


Boa semana a todos!

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