A VERDADEIRA HISTÓRIA DE ORLANDO SILVA E JOÃO DIAS.

José Simão, colunista da Folha de São Paulo, costuma dizer que este é o país da piada pronta. Do jeito que as coisas vão, o país está se transformando em uma tragicomédia de quinta categoria. Dá saudade da chanchada ( para os mais novos, uma forma de humor de grande apelo popular entre as décadas de 30 e 60 do século passado e que fazia uma auto-gozação da nossa forma de ser).


Os personagens atuais desta opereta caboclo-pastelão se chamam  Orlando Silva, Ministro do Esporte e  João Dias Ferreira, ex-policial militar que acusa o Ministro de desviar dinheiro do projeto “Segundo Tempo” embolsando a módica comissão de 20% sobre os valores pagos.


O surpreendente desta história é que  estes  personagens-bufos são homônimos de dois conhecidos cantores que fizeram sucesso na década de 40. O carioca Orlando Silva (1915-1978)  considerado na época a mais bela voz do Brasil, atraía de tal forma o público para suas canções que ficou conhecido como  o “Cantor das Multidões”. Já João Dias (1927-1996) , paulista de Campinas, por sua voz aveludada ganhou o apelido de “O Príncipe da Voz”.


Ironicamente, as letras dos sucessos destes talentosos artistas nos revelam toda a verdadeira história que o Ministério Público e a Polícia Federal tentam desvendar. Quer ver?


Caprichos do Destino
Orlando Silva - 1938

Eu não devia nem sequer pensar numa felicidade
Que não posso ter
Mas sinto uma revolta dentro do meu peito
É muito triste não se ter direito, nem de viver
Jamais consegui um sonho ver concretizado
Por mais modesto e banal sempre me foi negado...



É, ministro, o senhor deveria ter tido mais cuidado em 2007/2008 quando utilizou o cartão de crédito corporativo para pagamentos de caráter particular em restaurantes no montante de R$30.870,38 (incluído neste total a compra de uma “banal” tapioca  de R$ 8,30).  


Penado 14
João Dias - sem data

Numa cela sombria, do presídio distante,
O penado 14, seus dias foi findar,
Dizem os companheiros, que o pobre presidiário,
Morreu fazendo gestos, na ânsia de falar.


 João, aproveite a delação premiada para não acabar como o penado 14 de sua música. Em maio do ano passado você já se encrencou com a Operação Shaolin, da Polícia Federal por causa de contas não explicadas de sua ONG “Associação João Dias de Kung Fu”. Fale tudo o que sabe. As declarações “estarrecedoras” que você deu ao A.C.M Neto precisam vir a público.

 Errei, erramos
Orlando Silva - 1938

És também, nota bem
Estás na mesma infração
Venho ao tribunal da minha consciência
Como réu confesso pedir clemência
O meu erro é bem humano
É um crime que não evitamos
Este princípio alguém jamais destrói
Errei, erramos!

Faça isso, ministro! Reconheça sua culpa. Não adianta esbravejar diante da Comissão da Câmara sua inocência. E o terreno de R$ 370.000,00 comprado à vista em 2010? Qual o milagre para seu salário de R$ 10.748,43?

 E porque este terreno passa justamente em cima de um duto da Petrobrás sujeito a uma gorda indenização? De onde veio esta informação privilegiada? Com todos esses antecedentes fica difícil acreditar em sua inocência.


Nunca
Lupicínio Rodrigues- Gravação de João Dias em 1952

Nunca, nem que o mundo caia sobre mim,
Nem se Deus mandar e mesmo assim, as pazes contigo eu farei...

 João, meu caro. O que você sente é a dor da ingratidão. O Ministro deve ter  prometido algo a você e não cumpriu. Você não esperava ser preso nem investigado por desvios de R$ 3 milhões de recursos recebidos por convênios com o Ministério do Esporte. Agora você se vinga. Tem provas? Então apresente.

 Jornal de Ontem
Orlando Silva - 1944
Para mim, você é jornal de ontem
Já li, já reli, não serve mais
Agora quero outro jornal assim
Que tenha fatos sinceros
E sublimes, emocionais

Desculpe a minha franqueza
Releve a comparação
Não se vá encher de tristeza
É força de expressão
Mas francamente agora
Você para mim é um jornal atrasado
Que só vai servir para eu no futuro
Lembrar o passado.


Para mim, você é jornal de ontem
Já li, já reli, não serve mais

Todos nós, que trabalhamos honestamente para ganhar a vida,  esperamos que toda esta história suja seja destrinchada e que os “Orlandos e Joãos” não fiquem impunes, mais uma vez.

Não podemos perder nossa capacidade de indignação tratando estes fatos levantados pela imprensa como notícia que amanhã cairá no esquecimento.

Sr. Ministro. Não vamos deixar que essa notícia se transforme em “jornal de ontem”. O país está mudando. A presidente Dilma não tolera “mal-feitos”. Peça pra sair antes que seja tarde demais.

Agora, se o senhor quer ser respeitado pela imprensa e por todos nós, seus concidadãos, então prove sua inocência. Refute com evidências inquestionáveis que não recebeu na garagem caixas de papelão repletas de maços de R$ 100,00.

Assim, terá as notícias “sinceras, sublimes e emocionais” que tanto almeja.

Ouça o Orlando Silva cantando "Nada Além" de Custódio Mesquita e Mário Lago (gravação de 1938). Delicie-se com o belo arranjo de orquestra comum na época e hoje tão raro.



Curta também João Dias cantando o bolero "É por ti que choro" de Sílvio Silva (1929). A gravação é de 1963.

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