Gestão das Emoções. A competência do século 21.

Você, leitor, pode achar que inteligência e competência emocional são conceitos revolucionários e modernos. Lamento desapontá-lo. Aristóteles (384 - 322 a.C), filósofo grego que dedicou sua vida ao estudo da Ética, Lógica e Política já dizia em uma de suas obras mais importantes “Ética à Nicômaco” (335 a.C.): “Qualquer um pode zangar-se - isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa - não é fácil”.

Centenas de pesquisadores, das mais variadas linhas e escolas científicas, transitando da sociologia à moderna neuropsicologia têm se dedicado ao estudo das emoções humanas. Certamente você já ouviu falar de Daniel Goleman (1946-) autor do sucesso de vendas “Inteligência Emocional” (1995). Ele é tão somente um dos pesquisadores sobre o tema.

António Damásio (1944- ), neurocientista português e professor de neurociência na Universidade da Califórnia assegura que as emoções guiam o comportamento e o processo decisório. “A razão precisa da emoção para funcionar”.

Joseph LeDoux (1949-), neurocientista norte-americano, no seu livro “O cérebro emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional”, publicado em 1996 , celebra as emoções como os “fios que interligam a vida mental: são eles que definem quem somos nós para nós mesmos e para os outros”.  

 Estou convencido de que a grande competência do profissional no século 21 é a “gestão das emoções”. Essa competência pode ser descrita resumidamente como  o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que faz alguém construir relacionamentos positivos.

Através dela é que se pode “gerenciar” as próprias emoções e as das pessoas com as quais nos relacionamos sejam elas familiares, pares, superiores, clientes, etc. Ser competente emocionalmente torna nossa vida muito mais fácil, feliz e produtiva. Em alguns ela é inata, mas pode ser desenvolvida se a pessoa realmente se dedicar a isso. Exemplos de “incompetência emocional” temos às pencas e em todos os tipos de atividades humanas. Veja o exemplo real a seguir:

Você quer muito vender seu produto para um cliente com fama de difícil, principalmente agora que precisa atingir sua cota mensal. Ele reconhece a qualidade do seu produto e da sua empresa. Ocorre que este cliente está passando por momentos profissionais de grande estresse por conta de uma importante concorrência em que a empresa dele estará participando nos próximos dias. Se ganhar a concorrência os acionistas ficarão extremamente satisfeitos e o cliente será considerado um verdadeiro herói. Se perder, estará adiando para um futuro indefinido a colocação da empresa em outro patamar de competitividade.

Apesar de conhecer a situação, você prefere passar por cima da hierarquia e tenta conseguir um contato com o cliente através de um dos membros da diretoria à qual ele se reporta.

 O diretor força o cliente a recebê-lo em um dia em que o nível de tensão está nas alturas. O cliente o recebe com frieza e mau humor.

 Enquanto o cliente despacha com sua secretária você pega o celular e tenta falar com o diretor. O cliente, que é extremamente observador, percebe que você está falando sobre ele ao telefone.  O cliente resmunga baixinho, entre os dentes, alguns palavrões, mas a presença da secretária o impede de perder as estribeiras.

Você percebe que o clima se deteriorou de vez e recua. Despede-se do cliente alegando uma emergência e vai embora. Como você não conseguiu atingir sua cota, decide enviar um e-mail para a diretoria da empresa do cliente lamentando a “forma com que foi tratado” no seu último contato. Devido ao peso que sua empresa possui no mercado, o cliente é induzido a pedir desculpas a ela. Depois de toda esta situação esdrúxula, você e sua empresa obtêm a antipatia geral da equipe deste cliente. A empresa do cliente perde a concorrência. Valeu a pena?

Esta é uma história real. Aconteceu na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Alex Escobar (1974-), repórter da Rede Globo, queria o privilégio, assim como toda a equipe da Globo, de flexibilizar entrevistas exclusivas com os jogadores da seleção brasileira. O técnico Dunga (1963-) era contra. Escobar vai até Ricardo Teixeira (1947-), presidente da CBF, solicitando sua intervenção.

Na entrevista coletiva à imprensa de 24.06.10, às vésperas do jogo Brasil e Portugal, Dunga percebe Escobar ao telefone falando e o interpela perguntando se havia algum problema. Escobar acabara de dizer: “insuportável, bicho, insuportável”. Escobar responde que “não estava nem olhando para ele”. Dunga, irado, balbucia alguns palavrões entre os dentes, que vazam no áudio da emissora.

O Brasil joga no dia 25.06 contra Portugal e empata em 0 x 0. No “Fantástico” do domingo, dia 27.06.2010, a Globo emite o seguinte pronunciamento:

"A Associação Brasileira de Imprensa expressa à Rede Globo de Televisão e ao jornalista Alex Escobar sua solidariedade diante das agressões de que foram alvo por parte do técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Dunga, o qual mais uma vez revelou despreparo para o contato com profissionais de comunicação( ....). Assim agindo, o Senhor Dunga deu prova, por insuficiência cultural, de que não compreende que os jornalistas desempenham uma relevante função pública e buscam informações não para uso próprio ou das empresas para as quais trabalham, mas sim para atender às necessidades do conjunto da sociedade."

Devido à desproporcionalidade da reação da Globo, o público entulhou o site da emissora com milhares de mensagens de protesto e apoio a Dunga. Na próxima coletiva com a imprensa, Dunga se desculpa:

“Quero pedir desculpa ao torcedor brasileiro pela forma como me comportei. O torcedor quer torcer, não tem nada a ver com problemas pessoais meus… como brasileiro e como torcedor, eu só quero trabalhar… O torcedor não tem que ouvir desabafo meu, eu só quero fazer um bom trabalho, que me deixem trabalhar…”

O incidente agregou mais um fator complicador ao moral da seleção. O Brasil ainda ganhou do Chile por 3 x 0 nas oitavas de final. Mas, caiu frente à Holanda por 2 x 1 no dia 02.07.2010.

No dia 25.07.2010, na cidade de Córdoba-Argentina, a equipe masculina de vôlei do Brasil vence pela nona vez a Liga Mundial, batendo a Rússia por 3 sets x 1. À frente da equipe o técnico Bernardo Rocha de Rezende - o Bernardinho (1959-). A diferença entre ele e Dunga? Crenças, valores e o entendimento das questões emocionais ligadas ao relacionamento e à motivação dos atletas.  Dunga pode ter sido um excelente jogador. Certamente possui um profundo conhecimento técnico sobre futebol. Mas, precisa desenvolver sua competência emocional se quiser ser bem sucedido nesta nova fase de sua carreira.

Alex Escobar é um jornalista dedicado. Trabalha na quarta maior emissora de televisão comercial do planeta. Se quiser galgar posições e firmar-se como profissional respeitado deve dedicar-se ao desenvolvimento de suas competências emocionais.

Na era das mídias sociais, qualquer ação de uma empresa que afete negativamente a sociedade, recebe instantaneamente milhares de comentários ao redor do planeta.

O caso Dunga-Escobar caiu no Youtube  com mais 2 milhões de visualizações logo após o ocorrido.  

Nota de última hora:

O Brasil já tem seu neurocientista de renome global: Dr. Miguel Nicolelis (1961-), médico e PhD de neurociência da Universidade de Duke, situada na cidade de Durham, Carolina do Norte, Estados Unidos. Não estamos acostumados a encontrar um brasileiro no topo da comunidade científica. Só pra você saber: ele fundou o centro de neuroengenharia daquela universidade e seu trabalho está sendo considerado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) como uma das tecnologias que mudarão o mundo.  Dr. Nicolelis desenvolve pesquisas que integram o cérebro humano com as máquinas. É isso mesmo que você leu: sua equipe descobriu uma forma de controlar braços robóticos por meio das atividades cerebrais.

Dr. Nicolelis também fundou o Instituto Internacional de Neurociência Edmond e Lily Safra em Natal, no Rio Grande do Norte. Promete fazer ciência de ponta também aqui, no Nordeste Brasileiro.

Não conheço pessoalmente o Dr. Nicolelis, mas estou seguro de que ele, além das máquinas, consegue se conectar muito bem com seres humanos. Pena que sua linha de pesquisa não contemple a conexão emocional humana.

Espero que, no futuro, possamos aumentar nossa competência emocional tão facilmente quanto o Dr. Nicolelis faz um cérebro humano acionar um braço mecânico. Mas isso é outra história.


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